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"Soneto XXXVI"
                                        Mario Beirão
                                                       1890-1965

Donde emana essa voz que, no ar, delira
e ensombra as longas naves do arvoredo?
De que mistério ou íntimo segredo
flui a harmonia de ais que ao Alto aspira?

De que peito ferido ou estranha lira,
de que elegia ou áspero degrêdo,
nasce a trêmula voz, cheia de medo,
que, de eco em eco e flor em flor, expira?

Nasce talvez dum rio de amargura,
que vem dos ermos da minha alma triste
e divaga, a chorar, na terra escura...

Talvez dessa saudade indefinida
que eu reparto por tudo quanto existe,
pelas formas e as cousas; - pela Vida!


Mário Pires Gomes Beirão
in
"Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"
  J.G . de  Araujo Jorge - 1a edição - 1963

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