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Camilo Pessanha
1867-1926
“Estátua”
Cansei-me de tentar o teu segredo:
no teu olhar sem cor, - frio escalpelo, -
o meu olhar quebrei, a debate-lo,
como a onda na crista dum rochedo.
Segredo dessa alma e meu degredo
e minha obsessão! Para bebê-lo
fui teu lábio oscular, num pesadelo,
por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado,
esfriou sobre o mármore correto
desse entreaberto lábio enregelado
Desse lábio de mármore, discreto,
severo como um túmulo fechado,
severo como um pélago quieto.
in
" Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"
J.G . de Araujo Jorge - Vol. II - 1a ed.
1966
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