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" Os Dois Sonetos de Amor
                              da Hora Triste "

                                                                  Álvaro Feijó
                                                                         1916-1941

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro 
do que tu - não deixes fechar-me os olhos, 
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos 
e ver-te-ás de corpo inteiro 

como quando sorrias no meu colo. 
E, ao veres que tenho toda a tua imagem 
dentro de mim, se então tiveres coragem, 
fecha-me os olhos com um beijo. 
Eu, Marco Pólo, 

farei a nebulosa travessia, 
e o rastro da minha barca 
segui-lo-ás em pensamento. Abarca 

nele o mar inteiro, o porto, a ria... 
E, se me vires chegar ao cais dos céus, 
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus. 


II

Não um adeus distante 
ou um adeus de quem não torna cá 
nem espera tornar. Um adeus de até já, 
como a alguém que se espera a cada instante. 

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar 
de novo para ti, no mesmo barco 
sem remos e sem velas, pelo charco 
azul, do céu, cansado de lá estar. 

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação 
E não quero que chores para fora, 
Amor, que tu bem sabes que quem chora 

assim, mente. E se quiseres partir e o coração 
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino 
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?

Álvaro de Castro e Sousa Correia Feijó
in
" Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"
  J.G . de  Araujo Jorge - Vol. II - 1a ed.   1966

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