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Angola - Luanda (capital )
" Poetas
Africanos "
Apresentação
Quase nada sabemos de nossos irmãos portugueses da África .
Ainda recentemente uma inteligente leitora com quem me correspondo,
escritora e poetisa, observava numa de suas cartas: "De Angola é uma pena,
mas dir-se-ia até que os poetas angolanos não sabem cantar outra coisa que
não seja a meninice, as figuras que se habituaram a ver, o capim, as mulatas".
Afinal de contas a leitora não tem razão no tom restritivo que empregou. Os,
poetas angolanos utilizam-se praticamente de todos os temas: a meninice
(a infância), o capim (a paisagem), as mulatas (a mulher, o amor) .
Que poderão cantar mais?
Pena é, que, na fixação de sua obra não se servissem muito da velha a eterna
forma clássica da poesia: o soneto. Tenho aqui sobre a mesa o primeiro
volume da "Antologia Poética Angolana", da Coleção Imbondeiro, de Angola,
organizada por Garibaldino de Andrade e Leonel Cosme .
(É o 49.° volume da Coleção. A Editora Sá da Bandeira pretende publicar
outros volumes, uma vez que este primeiro inclue a obra de apenas treze
poetas da letra A, a começar em A. Neves e Souza e terminando em Aires de
Almeida Santos. )
Trata-se de uma iniciativa do maior alcance literário pois, se completada,
apresentará uma panorâmica da poesia angolana. Mas, não encontramos um
único soneto na antologia .
Compreende-se, de certa forma, o fato dos poetas africanos não se utilizaram
muito do soneto . Para seu canto novo, impregnado de ânsias nativistas,
expressão muitas vezes de suas angústias e revoltas, eles teriam que preferir as
formal livres, os poemas longos .
O soneto, - pequena taça - parece feito para os momentos felizes, tranqüilos,
para os brindes de amor. Nas horas duras, nos momentos difíceis de ânsias,
revoltas, confraternização, nos instantes de apelos e de esperanças coletivas,
quando a alma jorra em torrentes, e o canto tem que ser amplo a profundo, os
poetas preferem formas diversas,discursivas, e mudam até o tom, são épicos .-
Isto me faz lembrar a chamada poesia "realista", após guerra civil a segunda
grande guerra, na Hespanha, a nova poesia espanhola, densa, carregada de
indagações, procurando abrir caminhos .
É José Maria Castellet( * ) que lhe dá as características gerais:
a) Abandono da composição clássica em estrofes (postergação do soneto, etc.)
b) Verso de alento prolongado e poemas longos, diferentes da poesia de
tradição simbolista, cujas características são o verso curto e o poema breve
o que se explica pela ausência de conteúdo do mesmo e pela necessidade
de que as palavras sejam autônomas e suficientemente sonoras para justificar
a sua presença no poema .
c) Por isso mesmo, como diz Bousono, "o emprego de uma linguagem cotidiana",
quer dizer, cinzenta, imprecisa, como a língua coloquial.
d) Por ultimo, a revalorização do tema e o tratamento realista do mesmo, quer
dizer, submissão à temporalidade, intenção de refletir no poema a
problemática (ou o reflexo espiritual da mesma) do homem contemporâneo.
(*) “Vinte anos de poesia espanhola", na introdução de "Poesia espanhola de Após-Guerra",
de Egito Gonçalves. Portugália Editora, Lisboa, 1961
Como vêm, toda uma teoria estética para a poesia de nossos dias
- para um mundo socializado, agitado por injustiças milenares que
chegam à tona ameaçando todos os rumos e itinerários .
Voltemos entretanto aos poetas portugueses do Ultramar. Os leitores
encontrarão em nossa antologia uns poucos sonetos de poetas angolanos
e um, de um poeta de Moçambique .
Está claro que se tivéssemos que apresentá-los dentro de um critério mais
vigoroso de seleção, talvez reduzíssemos o seu número. Nesta mesma
situação me encontrei também quando da escolha de sonetos japoneses,
ucranianos, romenos, a até dos portugueses .
Vale a intenção de apresentar, no caso, alguma cousa que reflita o que
de melhor pude recolher nas letras africanas, no gênero.
Estaríamos evidentemente muito mais a vontade se a nossa
coletânea fosse de poemas, sem as limitações da forma escolhida
- o soneto, - e além do mais, só de sonetos líricos, de amor.
Aqui se encontram apenas quatro poetas:
Augusto Cerveira Baptista, Helena Verdugo Afonso,
Ruy Noronha e Tomás Vieira da Cruz..
Com exceção de Ruy Noronha, que é de Moçambique, da África
Oriental Portuguesa, os demais são de Angola, da África Ocidental,
e Tomaz Vieira da Cruz é considerado mesmo, a maior expressão
da poesia de sua terra adotiva. São todos poetas contemporâneos.
Wagner Ribeiro em sua Antologia Luso-Brasileira, editada em S. Paulo,
informa que "já se pode falar atualmente da presença de uma verdadeira
literatura africana de expressão portuguesa".
E observa, adiante: "O que singulariza a maioria dos escritores africanos –
romancistas, contistas, poetas ou ensaístas - é o objetivo comum de tentarem a
representação das terras onde nasceram ou vivem".
Muito raramente, infelizmente, conseguem chegar até nós as ressonâncias
literárias do continente negro. Apenas os ecos de suas lutas políticas de
libertação, muitas vezes sangrentas, mas que atestam evidentemente a
fermentação intelectual em seus países, pois não há luta pela liberdade sem
lideranças, e não há lideranças e lutas populares sem desenvolvimento
intelectual.
E nessas lutas - a África vem confirmando mais uma vez
- os poetas têm uma função de vanguarda a um papel fundamental.
Aí estão as figuras de Lumumba e Senghor, entre outras.
" Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1966
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