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"
Transfiguração " 
                                                   Ronald de Carvalho 


Quando o silêncio vai crescendo, quando 
o poente acende os lírios de marfim, 
as tuas mãos parecem pombas, voando 
na penumbra macia do jardim.

Como um cristal ressoante, vais passando, 
com perfumes nostálgicos, por mim; 
e teus braços, de um talhe real e brando, 
são dois pavões de espuma e de cetim.

Súbito, é um caule ideal teu corpo esguio, 
uma folha que esvoaça, no arrepio 
da ramaria ondeante dos chorões.

Mas, depois, vestes o ar de estranho luxo, 
e, numa refulgência de clarões, 
lembras a chuva de ouro de um repuxo!


Ronald de Carvalho (1893/1935)
Rio de Janeiro, Estado de Guanabara.

in
"Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"
  J.G . de  Araujo Jorge - 1a edição - 1963

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