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POETAS
LATINO-AMERICANOS
1- Na América Latina, observa-se o mesmo fenômeno que no Brasil. É patente a influência
da literatura francesa, maior que a das literaturas espanhola e portuguesa. O Renascimento,
o classicismo, o parnasianismo, o simbolismo, foram fazes e etapas da poesia francesa que
se refletiram com maior ou menor intensidade nas letras hispano americanas. Os grandes
nomes da literatura francesa, e uns poucos mais, de outros países europeus, traduzidos para
o espanhol, são os mesmos que os nossos poetas passaram para o português.
Um exemplo típico nos dá por exemplo o poeta colombiano Guillermo Valencia, uni dos
que mais se dedicaram na América à arte da tradução. No volume de suas Obras
Completas, Edição Aguilar, de Madrid (1955) (em que o número de traduções é quase o
mesmo de seus poemas originais) grande parte das suas "versiones" são de poesias de
Victor Hugo, Baudelaire, Heredia, Verlaine, Leconte de Lisle, Paul Verlaine, ao lado de
outros poetas também nossos preferidos, como Wilde, e D'Anunzio. Guillermo Valencia
aliás traduziu também para o espanhol um volume inteiro (Catay) de poemas orientais, e da
mesma maneira um grande número de poemas alemães. (Goethe, Heine, Rilke).
Como uma característica "criolla" desta literatura hispano-americana, diferençando-a da
nossa literatura brasileira, há o que eles chamam de "escola nativista" e em que incluem
poetas como Hilário Ascasubi, José Hernandez, Estanislao del Campo, (Argentinos),
Aquileo Echeverria (Costariquense), Ramon Velez Herrera, Nicolás Guillen (Cubanos),
Arturo Pellerrano Castro (Dominicano), José Allonso Treles, Bartolomé Hidalgo
(Uruguaios), e alguns outros, mais recentes.
Ernesto Morales em sua Antologia de Poetas Americanos, publicada no México, em 1956,
e onde figuram, inclusive, poetas brasileiros e norte-americanos, classifica os poetas em
Clássicos, Nativistas, Românticos e Modernos.
2 --O Soneto tem sido uma forma cultivada por quase todos os poetas latinos americanos.
E para provarmos esse interesse bastaria que citássemos a Antologia publicada pela
Editorial Claridad, de Buenos Aires, seleção e recompilação do poeta Hector F. Miri,
excelente tradutor, e que traz o título de: "El libro de los mil y un sonetos", e que afirma
ser "La antologia del soneto mas completa que se ha hecho en el mundo". Os sonetistas latino-
americanos, de um modo geral, são descritivos, "paisagistas". Isto não significa demérito,
mas acentua apenas um aspecto de sua literatura, caracterizando a influência do meio. A
paisagem se impõe, com sua exuberância, suas belezas, seus coloridos, e mesmo nas obras
de caráter subjetivo o poeta não pode escapar à influência do mundo que o cerca, e tira
dele infinitas imagens e figuração para fixar suas realidades subjetivas.
Nossos poetas, são, de certa forma, também, pintores, por uma contingência mesológica,
por uma imposição natural de circunstâncias geográficas.
A natureza européia de modo geral, embaçada, pálida, encapuçada de invernos rigorosos,
leva o artista a ensimesmar-se, a voltar-se para dentro. Na América Latina, evidentemente
não. Sol, calor, mar, céu iluminado, verões sem invernos e primaveras, outonos sem folhas
caindo, chuvas que apenas lavam e dão polimento à natureza, que fabricam vidrilhos e
arco-íres, este o seu meio, a sua paisagem.
Por isso, mesmo nas obras subjetivas, as janelas estão abertas para os nossos poetas, e a
paisagem entra e grita por todos os lados.
Mas nossas identidades temperamentais são latinas. Encontramo-nos por isso muito mais
com franceses, espanhóis, portugueses, italianos. E as influências e identidades com a
literatura inglesa se explicam talvez, porque o próprio pensamento inglês - seu espírito e
sensibilidade - sofreram, no fundo, influência latina, e a língua, primeiro, e o Renascimento
depois, marcaram definitivamente suas criações literárias.
3 - A um espírito crítico apressado parecerão de qualidade duvidosa os sonetos dos poetas
latino-americanos. Há neles o que se chama em pintura de "primitivismo".
São sentimentais, ingênuos, de rimas pobres, (ia, ida, ada, ar, ente, on, or).
Mas é preciso que se observe: as rimas consideradas pobres são uma decorrência natural
da poesia sentimental; simples, sem artifícios: é a linguagem do coração, como se diz.
E como a poesia é principalmente o veículo do sentimento, e como os povos jovens amam
e sentem muito mais do que pensam, sua poesia terá que refletir as emoções, com a
pureza e a simplicidade de sua formação cultural.
Nossos poetas não podem trazer a maturidade dos poetas europeus, saturados de
civilização, com lastro de dramáticas vivências, sensibilidades urbanas, flores de
acanhados jardins respirando o ar carregado das grandes cidades. Não podemos esperar
que o espírito dos poetas da jovem América venha denso de atmosferas interiores, de
conflitos e perquirições dos poetas do parnasianismo para cá. A América não poderia dar
essa flor mórbida de sensibilidade que é, por exemplo, um Rimbaud, ou mesmo um
Baudelaire. O pessimismo de Poe, é apenas filosófico, especulativo, mental - e não visceral
como o de Baudelaire. Nossa poesia guarda as características de limpidez inicial da
distante poesia grega, de Alceu ou de Anacreonte, quando nada havia para trás senão
a paisagem do seu mundo exterior e as ânsias e os desejos heliotrópicos do espírito
desabrochando.
Sente-se isto na leitura dos poetas latino-americanos. Nossos sonetistas estão muito mais
próximos de um Ronsard, com seu lirismo de água corrente, de água de fonte, transparente,
musical, refletindo o céu e as coisas ao redor.
E não será isto poesia, e a melhor poesia? Numa terra ampla e nova, rica de cores e de
paisagem, com povos simples, aventureiros, sem problemas que não os da expansão e
conquista da terra, o do enriquecimento e da liberdade, nossos poetas teriam que traduzir
em seus cantos estas emoções e estes -pensamentos . E, toda vez que, por formação
cultural erudita, tentaram ir além, caíram em falsos hermetismos, em penumbrismos
artificiais, em estudado decadentismo.
No fundo mesmo, nossos parnasianos, simbolistas e até os modernistas, não passam de
românticos mais ou menos inconformados, á procura de novas. -definições.
Mas, justamente devido a isto, esta falsa impressão de poesia menor, sub-estimada por
alguns. Recordo-me da opinião de meu velho mestre Afrânio Peixoto:
- "A literatura hispano-americana, como a luso-americana ou brasileira, é de imitação
colonial, e apenas, lentamente, se vai afazendo a uma autonomia política, se tanto, ainda
muito longe da econômica, e muitíssimo mais ainda da intelectual. Sub-literaturas
americanas é o que temos hoje em dia.”
Injusto e apressado juízo. A verdade é que nossa poesia latino-americana teria que sofrer
influências das Metrópoles Colonizadoras, de suas correntes de opinião, de suas escolas
literárias.
Mas o espírito americano se manifestou.cedo com insubmissão e nativismo, não apenas na
política, mas nas letras, com notas originais e obras com características regionais. Isto sem
falarmos em grandes nomes, integrados ao lirismo europeu, e que são filhos da América,
como os casos de Alarcon, Soror Juana Inês de La Cruz, mexicanos, e Heredia, cubano.
Mantendo semelhanças inevitáveis, decorrentes daquelas influências naturais, nossos
poetas revelam em suas obras, uma espontaneidade, uma graça, um. colorido, que são
aspectos típicos de poesia, nova, na forma, e no conteúdo.
E há que destacar ainda aquela força passional, aquele ímpeto nativista, o pinturesco
romântico que marcam em traços fortes o perfil americanista e autóctone da nossa jovem
poesia.
4 - Quando me dispus a preparar esta coletânea, uma das minhas preocupações era a de
reunir o maior número possível de produções de poetas latino-americanos. Mas muito logo
me convenceria de que não há quase nada traduzido para o português. Nossas fronteiras
culturais confinam com a França. Paris, culturalmente, sempre esteve para nós, do outro
lado da Bahia de Guanabara.
Nossos irmãos latino-americanos são marcianos; nunca existiram literariamente. Um
"oceano", maior do que o Atlântico nos separa, um oceano de selvas maciças, onde os
vagalhões abruptos dos Andes se constituem em verdadeira e intransponível muralha
chinesa. O rio Amazonas é um mito. O rio da Prata, uma simples referência histórica.
Nossas civilizações periféricas se espalharam pelas costas atlântica e pacífica, e deixaram
um impenetrável miolo, sem quaisquer vias de comunicação, que nos distancia e separa.
Ouvimos falar em um ou outro nome, mas, na realidade, pouco ou nada conhecemos.
Tirando algumas iniciativas individuais, o trabalho sem ressonância de uns poucos
abnegados idealistas, todo um intercâmbio está por ser feito. Ainda não fomos
apresentados. Estamos sentados, de costas, uns para os outros. A luta pela unidade do
Continente, hoje tão necessária, mais do que nunca, sob qualquer aspecto porque se
focalize a questão, ficou nos sonhos políticos de caudilhos como Bolívar e San Martin.
Mas a espada nunca construiu nada de eterno, e nunca foi elo ou elemento de consolidação,
por mais idealistas que fossem os que a desembainharam.
quando falamos de poetas ocorrem-nos nomes como os de Gabriela Mistral, porque
recebeu o Prêmio Nobel; Pablo Neruda que vez por outra nos visita; Juana de Ibarbourou,
Santos Chocano, Rubem Dario, Amado Nervo; mais recentemente esse extraordinário
Nicolas Guillen, e poucos mais.
5 - A literatura dos povos de descendência espanhola na América sofreu, conforme a
região, as correntes culturais e os ressentimentos da luta política de libertação, maior ou
menor influência da mãe pátria. O orgulho senhorial ficou como um vago substrato de
Castela. Os sonetos foram cultivados em todas as fazes, da clássica à moderna, com um
incremento maior durante o período parnasiano. Um dos maiores parnasianos de todos os
tempos é um cubano, o "francês" José Maria Heredia, de tão grande projeção, no
movimento literário na Europa e na América. É francês porque viveu em Paris e construiu
toda a sua obra no idioma de Ronsard e de Victor Hugo. Foi um dos poetas mais traduzidos
no continente, não só para o espanhol como para o português. Figura nesta coletânea, com
regular número de sonetos.
Concluindo: quando preparava esta antologia, ao constatar as poucas traduções da poesia
dos nossos irmãos latino-americanos, dispus-me a enfrentar a tarefa de apresentá-los aos
nossos leitores. Percorri livrarias escolhendo o que encontrava, e traduzindo o que me
tocava mais de perto o espírito e o coração. O resultado vocês julgarão. No capitulo
referente aos poetas latino-americanos a minha contribuição vai a mais de 70 sonetos.
Uma pequena picada que se dispôs a atravessar selvas de indiferentismo, montanhas de
esquecimento, para chegar ao ardente coração dos poetas que receberam a herança da
Espanha e a enriqueceram com suas experiências nacionais e pessoais.
Está aberto o caminho. Vamos alargá-lo para que cheguemos
a ser uma grande e única América, pelo espírito e pelo coração.
in
J G de Araujo Jorge,
"Os Mais Belos Sonetos Que O Amor Inspirou"
Poesia Universal - Européia e Americana -
Vol. III - 1a edição 1966
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