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Poetas Ingleses
                                             
Comentário de J. G. de Araujo Jorge

Já se disse que a poesia é a música dos ingleses. Grandes e harmoniosos
poetas possui a Inglaterra. Até seu clima parece levá-los à introspecção, a uma
vida interior.A falta de sol, de cálidas paisagens, não podendo abrir janelas
para fora, e cantar, fecham-se em si mesmos, e versejam.
Shakespeare, Tennyson, Shelley, Wordsworth, Byron, Wilde, para citar
apenas alguns picos mais altos da grande "cordilheira", deixaram obra de
sonoridades imortais e de profundas e emotivas sondagens no coração humano.
O Renascimento surgido na Itália chegaria atrasado à Inglaterra. Mas já
em fins do Século XV Henrique VII recebia de sua Corte poetas e artistas
italianos que professavam as idéias novas e o estilo renascentistas.
Antes mesmo, já Chaucer, considerado o pioneiro da poesia inglesa, depois
de uma viagem à Itália, retornara à pátria levando as primeiras influências dos
precursores do grande movimento cultural e artístico: Dante, Petrarca, Bocaccio.
A grande figura do Renascimento inglês foi entretanto, Shakespeare. Ele
só enche toda uma época e se projeta pelos tempos adiante com força cada vez mais
intensa. E Shakespeare, o maior poeta, foi também o maior sonetista. Mesmo que
não houvesse depois criado toda a sua extraordinária obra dramática, já se teria
imortalizado apenas com a coleção dos seus sonetos de amor.
E é curioso sabermos que, na época em que seus sonetos começaram a ser
divulgados, em cópias manuscritas, pelos amigos,- pelos moços, a crítica
hostilizava o poeta e procurava diminuí-lo, classificando seus versos de
"açucarados". Foi o que escreveu Meres, no "Palladis Tamia".
Durante muito tempo Shakespeare foi negado pela crítica, e pelos poetas
seus contemporâneos, apesar dos aplausos cada vez maiores dos seus leitores, na
maioria, jovens.
"Esse desprestígio atingiu o clímax no Século XVIII", informa Carlos
Alberto Nunes, no prefácio a "Shakespeare Sonetos", em traduções de Jerônimo de Aquino.
Steevens ainda nesse século, excluía das obras completas de Shakespeare
os sonetos, e achava que se o poeta não tivesse produzido as suas peças teatrais,
talvez não tivesse chegado até seu tempo. E opinava que havia um sonetista mais
antigo que Shakespeare, Thomas Watson, que o superava, pois era "melhor e mais elegante".
Mas, do Século XIX em diante, estaria reconhecido o juízo da posteridade.
O poeta dos versos açucarados, a quem a crítica e os poetas contemporâneos voltavam
o rosto, tornara-se imortal.
A primeira edição dos seus "The Sonnets" apareceu em 1609. O livro encerra
154 sonetos, dos quais os primeiros 126 dedicados a um jovem (?) e os restantes,
a uma mulher. Interessante é, observarmos, que, em muitas traduções, desconhecendo
tal fato, os tradutores se utilizam do tratamento, no gênero feminino, ao se
referirem à pessoa a quem se dirige o poeta.
O soneto, apesar de introduzido na Inglaterra durante o Século XVI, na forma
chamada petrarqueana, sofreu, a partir de Shakespeare, uma alteração,
transformando-se no "soneto inglês", formado por três quadras, com rimas
diferentes, e dois versos finais com rimas emparelhadas.
O criador desta forma inglesa do soneto foi Spencer, ou Henry Howard,
poetas que viveram um pouco antes de Shakespeare, também no Século XVI.
Praticamente o chamado soneto inglês é, na realidade, uma "outra forma poética",
mas tem sido aceito através dos tempos pelos críticos e leitores como "soneto".
E as alterações na forma italiana do soneto tradicional, feitas não só por
ingleses como alemães (sendo que estes o dividiram em uma estrofe com oito versos
e rimas diferentes, (uma oitava) e outra estrofe, com seis versos de rimas
entrançadas, (uma sextilha), decorreram, segundo muitos críticos, das dificuldades
de rimas nos idiomas inglês e alemão, o que levou os poetas a adotarem uma
composição mais livre.
A verdade, é que, tirando Shakespeare, Drayton e alguns outros, a forma
petrarqueana foi a preferida pela maioria dos poetas ingleses.
Houve ainda, poetas, que procuraram fixar o soneto em novas formas.
Spenser e Milton tentaram variações, sem maior importância e que não se adotaram.
Spenser, ao se utilizar do soneto depois chamado de shakespereano,
repetia na segunda quadra apenas duas rimas da primeira; e as duas novas rimas da
segunda, na terceira, com duas rimas novas; emparelhando as rimas nos dois versos
finais; ficando, portanto, as três quadras entrançadas de duas em duas rimas.
Milton, dava apenas continuidade ao ritmo e ao pensamento, fazendo do
soneto uma peça monolítica, e unindo a segunda quadra com o primeiro terceto.

Eis as variações das rimas nos dois tipos de sonetos ingleses:
        Shakcspeare         Spenser                   

a         a
b         b
a         b
b         a

c         c
d         b
c         c
d         b

e         d
f         c
e         d
f         e

g         e
g         e

Na Inglaterra, ao lado de Shakespeare, poderíamos mais tarde, acrescentar
os nomes de grande sonetista: Milton, Wordsworth, Swinburne, Elisabeth Barrett
Browning, Robert Browning, Dante Cabriel Roseti, e outros.
William Wordsworth é o responsável por um retardatário surto renascentista
do soneto no Século XIX, quando, louvando a forma imortal, compôs um célebre
soneto que começa com esta quadra:

Scorn not the Sonnet; Critic, you have frowned,
mindless of its just honours; with this key
Shakespeare unlocked his heart; the melody
of this small lute gave case to Petrarch's wound"

E que traduziríamos, em versos livres:

Não desdenhe o Soneto; Crítico, por que franzir o sobrolho
indiferente às honras a que faz jus? Foi com sua chave
que Shakespeare abriu seu coração; a melodia
desse pequeno alaúde aliviou o sofrimento de Petrarca.

Deixou também uma História da Igreja (em 137 sonetos); histórias de suas
viagens; e sobre temas os mais vários, outras séries de sonetos.
Elisabeth Barret Browning, em 1847, publicaria uma das mais belas coleções
líricas da poesia inglesa, o seu: "Sonnets from de Portuguese", e em sonetos no
clássico modelo de Petrarca.
E para encerrar, citemos Dante Gabriel Rossetti, descendente de italianos, que
exaltou o soneto no pórtico da sua "House of Life", com o belo verso:

"A sonnet is a moment's monument"

in
 J G de Araujo Jorge,
"Os Mais Belos Sonetos Que O Amor Inspirou"
Poesia Universal - Européia e Americana  -
Vol. III  - 1a edição 1966


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