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“Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”
Poesia Universal – Européia e Americana
Volume III – 1a edição 1966

1

Desde que me dispus a fazer esta obra que pensei em apresentar aos leitores um
comprovante do meu trabalho como tradutor. E isto pela simples razão de que me
conheciam apenas como poeta, de tantos livros, romancista, de “Um besouro Contra
a Vidraça”, livro que, -eis uma informação que poucos tem conhecimento, é o meu
livro mais vendido, batendo mesmo “Amo!”, cuja 13ª edição está no prelo.

E pretendia mostrar aos leitores uma amostra literária de minha nova atividade, para que pudessem bem avaliar não apenas a atenção que dispensei à feitura desta coletânea, mas o cuidado empregado na realização dessa difícil tarefa de reconstruir com palavras nossas, um poema, feito originariamente com material às vezes tão diverso.
É que os leitores nestas duas antologias ( volume II e volume III ) só terão oportunidade de conhecer os sonetos já passados para o português. A inclusão, lado a lado, do soneto no idioma original e na tradução, seria o ideal, mas aumentaria de tal modo o nosso plano, que, ao invés de dois volumes teríamos que organizar pelo menos quatro. Tudo isso implicaria em tornar a obra mais cara, e na realidade, atenderia apenas ao interesse de uma minoria de leitores.
Sem dispor portanto, da poesia em sua própria língua, o leitor pode gostar do que está
lendo,  mas muita vez terá o direito de se perguntar:

“Será que esta tradução está fiel? Seria isto mesmo o que escreveram Petrarca, Ronsard, Shakespeare, Gracilasso de La Vega? Até onde este poema consegue reproduzir a idéia,
a emoção, a linguagem do original? ”.

Mesmo levando em conta o belo trabalho realizado, mesmo considerando o conceito literário e a responsabilidade do poeta que o traduziu, mesmo que não tenha interesse em confrontar as peças, aquelas dúvidas poderão eventualmente ocorrer a muitos leitores.
Permito-me então apresentar uma espécie de “credencial”, pelo menos do meu trabalho, já que acabei sendo aquele que realizou o maior número de traduções.
A oportunidade me foi proporcionada por uma iniciativa recente do Suplemento Literário do “Diário de Notícias” do Rio de Janeiro.
Durante três e quatro meses o jornal realizou um pequeno Concurso Literário visando estimular o gosto pelas traduções, iniciativa realmente louvável. Os organizadores do Concurso escolheram um soneto de Rimbaud: “Lê Dormeur du val”.
A escolha se constituía num verdadeiro teste, pois o soneto é um dos mais difíceis, pela sua construção sintática, pela peculiar “semântica poética” de que se serviam os simbolistas e pelo próprio léxico.
Interessou-me o “desafio”, tentei minha escalada às alturas rimbausianas, e para a minha agradável surpresa, soube depois que ganhara o Concurso.
O “Diário de Notícias” do dia 18 de agosto publicava a seguinte notícia:

“ADORMEDICO NO VALE” DÁ A J. G.
O PRÊMIO “Diário de Notícia”

Entre mais de mil trabalhos lidos e selecionados
pela Comissão Julgadora do concurso promovido
pelo “ Diário de Notícias ” e intitulado “Traduza um
Poema” o poeta J.G. de Araujo Jorge foi o vencedor,
com a sua tradução do famoso soneto “Le Dormeur du val”.

A Comissão Julgadora estava constituída pelos
poetas José Paulo Moreira da Fonseca, Valdir Aiala
e Lêdo Ivo, tendo como relator o primeiro.

PRÊMIOS

O premiado, que concorreu sob o pseudônimo
de Paterne Berrichon, é o poeta brasileiro de maior
público do Brasil, alcançando os seus livros, em tiragem,
a mais de um milhão de exemplares.
J.G. de Araujo Jorge vai receber, como prêmio, a
Coleção Quatro Séculos, oferecida pela Livraria
José Olimpio Editora.

O POEMA

É o seguinte o texto da tradução premiada:

ADORMECIDO NO VALE
De Rimbaud

É uma clareira verde, onde canta um riacho
prendendo alegremente às ervas seus farrapos
prateados; onde o sol da orgulhosa montanha
brilha. É um valezinho a espumar claridades.

Um jovem soldado, a boca aberta e a cabeça
descoberta a molhar-se na erva fresca, azul,
dorme; está estirado ao chão, a céu aberto,
pálido, no seu leito verde, à luz que chora.

Os pés nos lírios roxos, dorme. E sorri como
Sorriria uma criança enferma, em sono leve.
Natureza – aconchega-o bem: ele tem frio!

Os perfumes não mais lhe excitam as narinas;
dorme ao sol; tem a mão abandonada ao peito.
Dois rubros orifícios sangram-lhe à direita
E, eis o original:

LE DORMEUR DU VAL

C’est un trou de verdure, où chante une rivière
accrochant follemente aux herbes des haillons
d’argent, où le soleil, de la montangne fière,
luit. C’est un petit val qui mousse de rayons.

Um soldat jeune, bouche ouverte, tête nue
et la muque baignant dans, le frais cresson bleu,
dort; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
sourirait un enfant malade, il fait un somme.
Nature, berce-le chaudement: il a froid!

Les parfums ne fond pas frissonner sa narine;
il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
tranquille. Il a deux trous rouges au côtê droit.


2
Traduzir é fácil? É difícil? Eis uma experiência nova, pelo menos para mim. Às vezes é fácil:
Os versos já estão prontos, inteiros, como em alguns poemas espanhóis, até mesmo franceses, para citarmos duas línguas mais próximas.
Mas, outras vezes, também, uma pequenina “pedra no caminho”, cria dificuldades imprevisíveis. Quanto mais se luta, mais ela cresce, parece intransponível. E, realmente, se desejamos transpô-la, chegamos finalmente à conclusão de que devemos nos despojar de alguns apetrechos clássicos (as rimas, a métrica, parentesco léxico de certas palavras, sua sonoridades), para nos mantermos em vôo, prosseguirmos nosso trabalho e atingirmos a meta.
Tive um exemplo do que afirmo, quando traduzi o belo soneto, simples em sua feitura lírica, relativamente fácil de ser traduzido “Anhelos” do poeta espanhol Francisco Rodrigues Marin.
A dificuldade estava apenas nos dois primeiros versos:

“Agua quisiera ser, luz y alma mia
que con su transparencia te brindara,”

Mantendo as rimas, teria em português inha e não ia, do espanhol. As rimas são “pequenos déspotas”, nos impõe suas idéias, nos obriga a tomar caminhos diferentes do nosso. E muita vez até, imprevistamente, novos horizontes. Os poetas, inadvertidos Argonautas, se deixam arrastar muitas vezes por seus cantos de sereia. Nos que convivemos com elas, e que as conhecemos bem, de longa data, sabemos de antemão aonde nos podem levar.
Pela simples observação das rimas de um poema, de suas correspondências em nossa língua, concluímos logo se poderemos mantê-las ou não.
E havia ainda um cacófato inicial:

“Água eu quisera ser: luz e alma minha”

o célebre cacófato camoniano, perdoável no genial português, escrevendo em linguagem quinhentista, imperdoável hoje. (
alma minha gentil que tu partiste...)
Depois de várias tentativas, sem conseguir o resultado que desejava porque preso às rimas e à fidelidade total da idéia, em seus mínimos detalhes, resolvi ater-me exclusivamente à concepção geral do poema.
E o soneto aparentemente simples, tanto se constituíra numa “batalha” que acabei por preferir apenas adaptá-lo.
Em casos como este, quando somos obrigados a relegar certos elementos formais, embora sacrificando algo da obra original, nem por isso deixamos de possuí-la e de conquistá-la em sua beleza poética.

3
“Um poema é um poema, como uma maçã é uma maçã ou uma laranja é uma laranja”
afirmou Vicente Huidobro, o grande poeta chileno.
É único, indivisível, imutiplicável, tal como foi concebido, gerado, nascido em palavras.
Concordo em princípio que é possível se passar um “corpo de palavras” para outro, sem que
o espírito sofra algum abalo ou se altere, e isto porque o espírito está visceralmente preso às palavras, como as radiações às matérias.
Se fosse possível transferir nosso espírito para outro corpo, mesmo com as nossas medidas
físicas aproximadas, como nos sentiríamos diante do espelho?
E será que nos reconheceríamos?
Isto não quer dizer, entretanto, que um poema não possa ser “recriado” em outros idiomas,
com vocábulos de correspondente valor, de idêntico sentido e aproximadas sonoridades e ritmos.
Não estou, pois, de acordo, com Michel Simon, quando escreveu “A guisa de introdução” numa antologia de sonetos traduzidos do francês.
“Um poema não se traduz. Tampouco o odor da folhagem, um canto de céu, um sorriso de mulher ou, mesmo, uma recita de cozinha”.
Na verdade, pode-se aprender o canto do pássaro, reproduzi-lo; pode-se fabricar um perfume igual a outro, o mesmo perfume, de tal forma indistintos, na flor ou na mulher que o usa; pode-se reproduzir um sorriso, com outro igualmente belo; e o paladar, pela possibilidade de sua reprodução é um dos mais fortes elementos proustianos de revivescências e lembranças.
Dá-se, às vezes, que não só se copia igual, se reproduz exatamente, como até o gênio criador ultrapassa, na cópia, ou na tradução, o original.
Ninguém discutirá está claro que o original é o original, a cópia, a cópia, a tradução, a tradução. Mas, na medida do possível, quando as figuras de linguagem, as imagens, são reconhecíveis, quando as palavras comunicam, e tem correspondentes nos dicionários; quando suas combinações traduzem símbolos e realidades subjetivas evidentes, sem projeções esotéricas ou hermetismos pessoais; uma tradução pode ser tentada, de poeta para poeta, com bons resultados.
Como uma “transfusão” de sangue, digo, “de espírito”, do mesmo tipo, sem choques para a poesia.
Eu diria que a obra quando é humana, e portanto universal, sem precisar de falsos cicerones,
pode ser captada e, portanto, traduzida.
O indispensável é que o trabalho seja realizado também por um poeta, um artista, um homem inteligente, dotado de elementos para a consecução de sua tarefa.
Gaughin afirmava que
“ o homem inteligente é sempre artista faça o que fizer”.
Uma tradução é uma estranha e singular “reencarnação” em palavras que eu diria, entre “vivos”. Já escrevi, há anos no prefácio de “O Canto da Terra”:
“Um poema, um quadro, uma estátua, uma partitura, “existem”, tem vida própria, como um organismo, independente do artista que os criou, - assim como o homem que, uma vez criado, independe do ser que o gerou. Na realidade, um poema tem sangue, nervos, coração, fala, comove, tal como um ser, tal como o próprio homem”.
4
No simples contato, na simples leitura de um poema que emociona, o poeta como que entra em “levitação”, ingressa num “clima” estimulante, propício à criação, num meio “transe poético”, espécie de predisposição criadora.
Quantas obras não surgem de idéias que nos ocorrem quando lemos outras? Quantas obras não começaram com anotações que fazemos à margem dos livros, os comentários que vem à tona do espírito e se realizam como silencioso diálogo, entre nós e o autor?
Não raro, a leitura de um trabalho é que desencadeia esse verdadeiro processo criador, autônomo e original. Costumamos confessar que, lendo tal ou qual trabalho, tais ou quais idéias nos ocorrem...
E o que é realmente curioso e estranho é que, a idéia suscitada, não apresenta muitas vezes, depois, na obra criada, nenhuma relação aparente com a obra “matriz”, e que nos revolveu o espírito como um arado criador.
Numa tradução, acontece muitas vezes, isto: impulsionados pela “catapulta” da obra que pretendemos traduzir, podemos, diante das dificuldades encontradas, por comodismo, ou por demasiada força da inspiração desencadeada em nós, “esquecemos” a obra, modificá-la, e afinal acabar por fazer, não uma tradução mas uma adaptação, ou como preferem alguns, uma paráfrase.
Do original permaneceu a idéia geral, o arcabouço formal, mas a colaboração do tradutor foi de tal monta que, na realidade, a obra bipartiu, passou a ser duas, a ter dois autores, ao invés de um só, como anteriormente.
Foi o caso a que me referi, por exemplo, quando tentei passar para o português o soneto de Francisco Rodriguez Marin.
Todo aquele que se dispuser ao apaixonante trabalho de traduzir, verdadeira aventura do espírito, verdadeiro desafio da inteligência, vai-se defrontar muitas vezes com o dilema: - ou abandona as dificuldades formais, algumas insuperáveis, e se fixa na idéia principal da obra; ou se apega a esses aspectos clássicos de composição, e a substância poética corre o risco de se perder, de se tornar irreconhecível.
O ideal, evidentemente, é manter numa comunhão integral, idéia e forma. Mas, quando se tiver que optar, esta deve ser sempre pelo espírito do poema, sua mensagem, que é, em última análise, o poema em si.

J.G. de Araujo Jorge
                                                                                 

in
 J G de Araujo Jorge,
"Os Mais Belos Sonetos Que O Amor Inspirou"
Poesia Universal - Européia e Americana  -
Vol. III  - 1a edição 1966


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