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(foto de J G aos 21 anos)

" A Taça do Soneto  "
                                                          ( Minha homenagem a esta forma fixa,
                                                          eterna, de poesia. J.G.
Araujo Jorge)


Os Mais Belos Sonetos Que  O Amor Inspirou
volume III  - Poetas Franceses


Os franceses disputam com os italianos a glória da invenção do soneto.
Autores há que encontram as raízes do soneto em muitos poemas
provençais e na chamada poesia da Corte, cujas pesquisas se devem a
Colletet. A própria palavra “sonnet” na língua provençal queria
significar pequeno poema, cantado, acompanhado pelos sons de instrumentos.

Mas o verdadeiro aparecimento do soneto, na França, data do Século XVI.

Alguns o atribuem a Melin de Saint Gelais. Moacir M. F. Silva em seu pequeno,
mas erudito ensaio "Quem inventou o soneto", informa:

“Segundo Saint Beuve pode-se considerar Joachim Du Bellay, com a
publicação em 1959 do volume “ Olive, recueil de sonnets ”,
como o verdadeiro introdutor do soneto na França”.

Apenas o introdutor, portanto, e não o criador. É de Sainte Beuve,
numa paráfrase célebre a um soneto de Wordsworth, (não menos célebre)
este verso:

“Ne ris point du sonnets, o Critique monqueur!”

E neste mesmo soneto, cujo final alterou, resume a história do
aparecimento do soneto na França:

“Du Bellay, lê premier, 1'apporta de Florence,
et 1' on cri sait plus d'un de notre vieux Ronsard”.

Realmente,trazido da Itália por Du Bellay,o soneto teve em Ronsard o
Petrarca francês, não apenas porque aprimorou sua forma, divulgou-o,
mas principalmente porque deixou a maior obra já escrita em sonetos,
em qualquer literatura.

Os dois volumes de “ Lés Amours ”, onde se encontram incluídos os “ Dois livros de
sonetos para Helena”, contêm cerca de seiscentas peças. Mas Ronsard, ao contrário
de Petrarca, para quem houve apenas uma Musa, deixa claro que seus sonetos,
aqueles que não estão incluídos nos "capítulos" para Helena tiveram como inspiração
outros amores.

Mas, no começo do século seguinte,houve um certo decréscimo no interesse pelo soneto
No tempo de Luís XIV, no entanto, já no fim do século XVII, na própria vida da Corte,
em tertúlias literárias e reuniões mundanas, o soneto ganhara um extraordinário
prestígio. Foi nessa época que Boileau o exaltou, estimulando os poetas a que o
realizassem perfeito, “sans defaut ”.

Formaram-se até partidos, campos de luta de facções que se digladiaram a propósito
de sonetos, como o caso da disputa entre os partidários de um soneto de Bensarade,
intitulado “Job”, e outro de Voiture, o “Uranie”.

“ Jobelins e Uranis dividiram homens de letras, cortesãos e burgueses, de tal modo que
Cornèille pode dizer, sem tomar parte na contenda: “ Deux sonnets partagent la Ville”,
comenta Mello Nóbrega em seu ensaio “Os sonetos do soneto”.
Em 1617 houve até un:a “guerra de sonetos” em torno de um soneto de Racine, em que
se envolveram não apenas os literatos, mas até nobres e políticos como o
Príncipe de Condé e o Duque de Nevers.

Em seguida, os primeiros românticos se incumbiram de cultivá-los, apesar do desdém
que alguns lhes votaram, como é o caso de Victor Hugo.

E com os modernos, parnasianos e simbolistas, o soneto reencontrou o velho prestigio,
com força ainda maior, e cultores excepcionais. Poetas houve, como Josephin Soulary,
com os seus sonetos humorísticos, e José Maria Herédia, com os seus sonetos
históricos, que não se contentaram em escrever sonetos esparsos, mas os compuseram
em séries, tal como se deu com o inglês Wordsworth.

Em março de 1866 publicava-se em França, numa edição Lemerre, o “ Parnasse
Contemporain ”. Do grupo faziam parte Theophile Gauthíer, Theodore de Bainville,
Leconte de Lisle, seguidos de Heredia, Baudelaire, François Copée, Sully Prudhome,
Verlaine, Mallarmé ao todo 37 escritores, uma extraordinária constelação
onde figuravam alguns dos maiores poetas franceses de todos tempos. Eram os chamados
“ parnasianos ”, que, com este nome, batizariam uma escola e um dos movimentos
literários de maior repercussão nas letras, em todo o mundo.

Tratava-se de uma reação contra o individualismo na arte, as excessivas liberdades
românticas, um retorno, de certo modo ao culto do classicismo, suas formas,
seu artesanato estético e estilístico.

Desse grupo de parnasianos, dois poetas, Verlaine e Mallarmé se distanciariam depois,
e se constituíram numa corrente nova, - a simbolista, - influenciando também
decisivamente a poesia brasileira.

Do simbolismo se originaram praticamente as correntes modernas que se insurgiram
contra as grades e algemas parnasianas.

A verdade é que, os poetas franceses mais traduzidos para o nosso idioma, (exceção de
Victor Hugo) pertencem ao grupo parnasiano. Raymundo Correia chegou a publicar um
volume intitulado “ Versos e Versões ”, e, como bom “ discípulo ”, enfeixou a obra de
seus companheiros do “Parnaso Contemporâneo”.

Onestaldo de Pennafort, traduziu para o português uma seleção de poemas do “ Fêtes
Galantes” de Verlaine, e Guilherme de Almeida, além do seu “Flores das Flores do
Mal”, de Baudelaire, possui no seu “Poetas de França” e no “Paralelamente a Verlaine”
um grande número de traduções de trabalhos dos poetas desse período.

E não é menos verdade também que, justamente pela mão dos parnasianos,
o soneto voltou ao seu trono poético.

Depois deles, românticos, simbolistas e modernos, continuaram vassalos humildes, e
bem poucos poetas até hoje conseguiram resistir às suas tentações.


 J G de Araujo Jorge
in
"Os Mais Belos Sonetos Que O Amor Inspirou"
Poesia Universal - Européia e Americana  -
Vol. III  - 1a edição 1966


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