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" Solilóquio do
Poeta na Madrugada "
Não tenho nada importante para dizer nesta madrugada.
( Geralmente, nas madrugadas é que os sonhos
como os corpos dos mortos
vem à tona, flutuar. )
Não tenho nada importante pare dizer nesta madrugada.
Sobre a superfície de minha alma, brunida
como a face de um lago
voga apenas a felicidade - cisne branco
solitário e pensativo.
( Desculpem-me: mas importante para o poeta, é esse vinho
de palavras - seu vício, -
com que sente necessidade de embriagar o coração. )
Não tenho nada importante para dizer. Entretanto eis-me aqui, barco a deriva
dando à praia deserta
sem amarras sequer para atirar.
( Seresteiro boêmio - minha máquina de escrever é meu instrumento
música e canto em que me transmudo,
muro de lamentações de minhas mágoas
guizo, de minhas fantasias.)
Não tenho nada importante para dizer, mas algo em mim me trouxe até ela
- esse impulso que leva o crente ao templo
para conversar com Deus,
num momento de desamparo
ou de gratidão.
Bem sei que não é importante que eu me sinta assim
leve e pleno dentro da noite
sem maiores razões para me sentir feliz,
- feliz porque as coisas dormem, e a paz ao redor é acariciante.
(E há ainda o meu rádio, - companheiro e personagem de tantas vigílias,
onde um piano, agora, esta declamando poesia,
e a noite, - sonho múltiplo e silencioso
da vida, a pairar, em tudo...)
Você já experimentou essa sensação de se encontrar consigo mesmo
sem testemunhas, como quem esta deitado sobre relvas
a olhar o céu distante?
- apenas alguns momentos inconseqüentes, passando,
que viraram lembranças, e esvoaçam como gazes?
E aquela certeza de que ninguém sofre por você,
de que nada deve, de que pode gastar perdulariamente o coração
como um jogador,
que todos os que ama, ou os que o podem amar, dormem tranqüilos
e amanhã será um novo dia, e cada encontro
um bom-dia! para todos!
Não tenho nada importante para dizer. Só essa vontade de encontrar o coração
sem interlocutores,
de falar para ninguém, e sem resposta,
- o espírito como um monge, em êxtase,
a saborear a noite, como uma bebida quente
docemente,-
o pensamento como um budista sentado sobre os joelhos
à espera do Nirvana.
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Meu amor foi dormir. Era isso talvez o que eu queria dizer
e não sabia,
e isto talvez explique esta vaga euforia em que me
sinto flutuar
na madrugada...
Meu amor foi dormir
embalada naquele doce cansaço que lhe teci como uma rede,
e eu só, ainda resisto, mais forte, pelo prazer
de prolongar os acordes de uma felicidade
que canta sozinha, como um bêbedo na madrugada.
Coisa boa a gente se sentir assim, o coração embriagado
sem ter bebido,
em paz com a vida, grato ao momento que passa, ( nuvem alta, distante )
sem filosofias.
Feliz, só isto. Sem precisar sequer entender.
Não tenho nada importante para dizer
esta madrugada.
( Poema de JG de Araujo
Jorge extraído do livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. IV - 1a edição 1965 )
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