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 "
 
Irremediavelmente "


Hoje, quando me encontras
sou um homem amargurado
a tentar esconder-se em sua alegria triste
e em seu triste humor.

Sou um homem ferido, que ainda vive e resiste
desfeiteado
por um amor morrido:
inacabado amor.

Por que não foges? Por que te contaminas
com o fel
dessa melancolia,
que em vão, de risos e cantos
se fantasia,
procurando encobrir um pessimismo cruel
e medonho?

E por que partilhares esse amargor doentio
tu que és toda Primavera
e tens direito ao sonho?

Se há tantos corações iguais ao teu,
no estio,
por que tua ternura ingênua persevera
em vir morar num coração tão frio
e tristonho?

Percebo, - e basta um segundo só, se me concentro:
- sou um homem morrido, irremediavelmente triste
por dentro
a pintar-se, entretanto, por fora de alegria,
por orgulho, pudor, por estranha ironia...

E a tentar disfarçar em vão, seu cansaço
e seu tédio...

Desiste, amor, desiste!
Não gaste tua vida assim, inutilmente,
para salvar um doente, a quem o amor fez doente
sem remédio...


  
( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. IV -  1a edição 1965 )


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