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 " Linha Circular... "

    

Eu era um homem simples, verdadeiro,
na rotina da vida cotidiana,
às vezes desejando coisas loucas
mas vivendo o melhor sem me dar conta,
dono das coisas simples, simples coisas
que a gente tem sem perceber que tem:

- era a rua tão clara ao meu bom dia,
toda a gente que adiante ia encontrando
nas calçadas, nos carros, pelas portas,
que sem saber comigo partilhava
do meu mundo - cenário e companhia.

Depois, o meu trabalho cada dia
recopiado em carbono tal e qual:
o cafezinho, o bate-papo, a roda,
os romances  "vantagens " , sem história,
e o retorno cansado, ao vir da tarde,
o meu banho de mar, o meu cinema.

Eu era um homem simples, verdadeiro,
igual a outro qualquer, e eu nem sabia!
- com lugar de partida e de chegada
e um vago tédio de quem vai levado
nessa felicidade imbeliscada.
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A minha vida era, afinal, um disco
que ficara esquecido na vitrola.
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De repente, chegaste! Oh, nunca mais
soube de mim, nem sei de minha vida!
Agora, sou alguém que vive a espera
do momento em que deve te encontrar
sem nunca ter certeza se virás...
E enquanto espero, nada sei fazer
senão pensar em ti... sofrer em mim!

A vida é uma ansiedade, uma aventura,
o ciúme, uma malária que me arrasa,
e eu te sigo de longe, e ainda mais perto:
e me pisas sem ver, menos que sombra.

Oh, saudade do disco na vitrola,
da rotina da vida cotidiana,
- o trabalho, o café, o tédio, o lar -
do homem simples, morrido, verdadeiro,
oh, saudade da linha circular...



  
( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. III -  1a edição 1965 )


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