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" Colóquio Prosaico "


I
Porque as cousas que me cercam se impregnam de poesia
porque lhes transmito minha convivência
e que posso amá-las e senti-las com a perspectiva
da minha emoção.

Oh! felizes são aqueles que encontram os objetos amados
nos seus lugares, ao seu redor,
e possuem o dom de transubstanciar-se em seu próprio mundo
cercado por uma imensa família,
mesmo em solidão.

Seres do nosso mundo
os jarros, os quadros, os livros, as cortinas,
a janela, a cama, a mesa,
são velhos companheiros, formas estáticas de pensamentos,
são velhos confidentes, testemunhas silenciosas
de nossos conflitos,
estatuas de mil figuras e personagens
representando-nos em tantos instantes diversos . . .

Cada um é um monumento múltiplo, onde se agrupam
tantas idéias,
tantas conjeturas e solilóquios,
fazem parte de nossa vida, e se encontram nela, vivos
como a cena nas personagens.

II

Neste apartamento, sem ninguém, só eu não serei estranho,
só eu encontro companhia, pois em suas formas continentes
tenho vivido.

As cousas me conhecem, me olham, me recebem, me aconchegam
principalmente quando estamos inteiramente a sós
porque então nada lhes tolhe a infinita timidez.

Meus livros me esperam - nas suas margens deixei-me ficar ,-
gravei mudos pensamentos em suas entrelinhas,
ampliei-os, e só aos meus olhos tem tantas páginas
que outros não lerão jamais.

E estes dois jarros simples, se não os encontrasse mais
seria como se mutilassem meu mundo;
estes quadros representam configurações que só minha imaginação criou
e estão na parede, como a nuvem no céu.

Minha cama, oh! estender-me, horizontal a humilde, e encontrá-la sempre à espera
sem um reclamo, uma exigência,
branca e macia como um gesto de enfermeira,
minha cama, meu chão de cada noite de cansaço e amor.

Minha mesa - ao seu lado sentei-me tantas vezes diverso
como um deus - capaz de criar mundos sobre suas quatro pernas,
ou simplesmente humano, a receber o pão,
minha mesa, palco onde minhas mãos representam seu destino
na eterna cena que imagino e crio.

Meu radio, meu magico Dr. Fausto, com sua alquimia maravilhosa
a transformar meu silêncio em Scheerazade
e se pondo a cantar na minha pausa.
Minha máquina, meu instrumento de curiosas e minúsculas teclas
que às vezes parece mesmo tocar antes que lhe encoste os dedos,
e vai guardando em sue branca memória tanta cousa  para além dos limites da vida
ouvindo e repetindo o que lhe digo;

minha máquina, harpa e saxofone, violino e clarim, corda e metal,
lançando palavras mágicas, que eram apenas recôndita e misteriosa vibração,
sempre pronta ao trabalho até na minha insônia.
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Amo as cousas que me cercam, elas tem alma para mim,
vivem comigo a minha vida e partilham do mesmo destino,
e - sobre elas me encontrarei como uma sombra
até que o sol se ponha.



  
( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. III -  1a edição 1965 )


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