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" Rapsódia em Cinza "
Em meio das cidades ciclópicas,
cheias pelo denso cosmopolitismo
de gentes
de todos os mundos,
de todas as raças,
- sou como um banco vazio onde se sentam poetas
e dormem vagabundos
e indigentes,
na quietude das praças...
Sou, dentro das cidades, as praças ainda verdes
os jardins com repuxos
onde brincam nos domingos de sol as crianças,
e onde passeiam namorados,
- e é por isso talvez que ainda trago em minha alma
algum silêncio
e em meus olhos algumas esperanças
como folhas boiando em dois lagos parados!
Que os poetas, são nas cidades, nas ruas agitadas
pelo movimento,
imprensadas e sem ar
por entre os paredões do arranha-céus cinzentos,
as árvores da rua que ninguém repara
ao passar,
mas que nos dias de sol quente, escaldante,
tem as folhagens sombrias de seus ramos
nostálgicos e descontentes
fazem sombra no piso das calçadas
onde todos passamos
indiferentes...
Meus poemas, com as suas notas verdes, coloridas
- lembram talvez,
a arborização
das ruas e avenidas
e das praças mais quietas,
onde sonham meditativas hermas de poetas...
Nelas, nas horas suaves de melancolia
ao fim do dia
quando a tarde é um bocejo roxo de cansaço,
e ziziam as últimas cigarras,
por entre gorjeios vivos, e vôos longos, suaves,
se recolhem em bandos felizes as aves
pelo espaço,
em algazarras...
Minha vida é por isso uma fuga constante, uma fuga
às vezes sem razão
diante da decadência, da miséria, e dos ruídos
da civilização
para a renascença tranqüila e o sublime esplendor
de um novo templo pagão!
Uma fuga para longínquas a indescritíveis viagens
maravilhosas,
onde há coloridas paisagens
silenciosas,
que se desdobram, refletidas,
nas pupilas dos meus olhos onde a vida
esconde tantas vidas!
( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do
livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. II - 1a edição 1965 )
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