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" Trecho de Noturno "


  

É tarde já . . . Cheguei cansado e exausto, trago
    dentro da alma um complexo estranhamente vago,
uma angústia que eu mesmo não sei definir...    
Acabei de dançar, de beber, de sorrir...                 

Tenho os olhos ardendo, e eu sei, porque ainda há pouco
olhando-me no espelho tinha o olhar de um louco          
e a palidez de um doente... E pensei para mim                 
que essa vida da noite é exatamente assim:                      
vale pela ilusão de que estamos contentes,                       
ninguém sabe o que eu sinto... e quem sabe o que sentes?

A alegria que espuma, é a espuma da bebida 
          que dá ao sangue a impulsão de um excesso de vida;
os gestos de que a alma inflamada é capaz    
sintonizam com os ritmos doidos do jazz,        
vamos buscar a vida, o prazer, e enojados       
   saímos com a impressão de que fomos logrados!

Ora, o mundo afinal, não sendo mau nem bom              
lembra mesmo uma casa alegre de bas-fond;                 
- na fachada a féerie dos letreiros piscando,                  
por dentro, uma algazarra falsa, transbordando           
sobre almas enfastiadas de tédio e de amor!                  
  Por trás destes letreiros cheios de esplendor,                    
rebrilhantes, na névoa das horas já mortas,                  
quantos vultos sem rumo entre as frestas das portas     
quanta vida afinal desarvorada e ao léu!                       
Dentro de todo o ruído e de todo o escarcéu                  
sem se olhar para os lábios, - nos olhos, no fundo,      
há um drama que envergonha as platéias do mundo!  
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Perdoa-me se escrevo estas cousas, perdoa,
          nem sei bem o que escrevo, estou traçando à toa
estas linhas que lês... e esta filosofia          
barata, eu a pensei, já à luz baça do dia     
           que anda clareando o céu e desenhando as ruas...
        Cheguei; sentei-me aqui... e uma das cartas tuas
encontrei sobre a mesa esquecida: reli-a ...

Que amargura interior, que imensa nostalgia       
invadiu-me ! E conquanto isso pareça estranho 
descobri por mim mesmo um desprezo tamanho   
que os meus olhos choraram sem saber porquê ...

     É tarde... e é muito cedo... O dia se entrevê...
É uma difusa, extensa, e dúbia claridade,
  como uma olheira roxa a envolver a cidade
               que dorme... Ouvem-se ao longe, passos, raramente,
que ficam muito tempo no ouvido da gente
               e se perdem distante... e mais longe... e mais longe...

(A noite é agora assim como um capuz de monge
sobre a face marmórea e pálida do dia               
   esbranquiçando o espaço... Há uma funda poesia
   ao redor, no silêncio... E eu penso que nesta hora
tu dormes... E antevendo, além, o vir da aurora,
invejo o Sol que vai teus olhos despertar...       

Como deves ser linda a dormir e a sonhar ! )     

          Calco os olhos... e sinto as pálpebras pesadas
mal vejo no papel as letras rabiscadas;
    a mão que as vai traçando, vacila, falseia,
                  como um ébrio que andasse a pisar sobre a areia ...
                E nem queiras saber por que te escrevo, eu mesmo
   não saberei dizer... faço esta carta, a esmo,
     e lendo-a, pensarás talvez que enlouqueci...
Pois seja! Fiquei louco de pensar em ti!

   Louco, sim! E entretanto se te visse agora                
eu não te abraçaria... eu mandar-te-ia embora    
  ou gritaria então quando surgisses: -
"Pára!           
olha os meus olhos! olha-os! fita-os bem, repara!   
não te encostes em mim! os teus lábios não sujes!  
porque há nos meus vestígios de ordinários ruges, 
tenho-os vivos na boca! Ah, se as visses! Coitadas!
      Nem me toques... As mãos, também tenho-as marcadas,
e ainda sinto ao redor do corpo, abraços frios,      
de braços que lembrando amarras de navios           
         prendem-se a qualquer cais... jogam-se a qualquer porto!

Devo estar meio vivo, ou talvez meio morto!..."     

Se chegasses aqui, por milagre ou encanto
havias de me ver ( talvez cheia de espanto ),
    ajoelhar-me aos teus pés... e pedir-te somente
    que pousasses a mão na minha face ardente...
Nada mais... nada mais ousaria pedir        
eu que agora queria esquecer e dormir...    

Pensa o que tu quiseres, pensa que estou louco,       
mas não me queiras mal afinal por tão pouco...          

     Cheguei... Sentei-me aqui, alma abatida e farta,
                e encontrando ao acaso, esquecida, uma carta, reli-a ...
A tua carta, aquela que eu releio                    
   chorando, a te adorar, e a pensar que te odeio...
Perdoa se te escrevo, esta é uma carta morta, 
              bem sei que nada há mais entre nós dois, - que importa
     pois, que eu te fale ainda?... É um desabafo triste
já que tudo levaste... e nada mais subsiste...    

É tarde... o dia chega... a madrugada é alta.                  
Ah! Se pudesses ver como me fazes falta!                        



( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. I -  1a edição 1965 )


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