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"
Trecho de Carta "


Quisera simular indiferença, quando
            o teu olhar repara alguém que vai passando
    e se acaso sorris a algum teu conhecido
     fazer-te crer que sigo alheio e distraído...
Desejava também nem de leve tocar    
       no passado, que às vezes volta ao teu olhar
          quando um fato banal qualquer o ressuscita;
e sabendo que és graciosa e bonita     
            e que ao saíres, certo, hás de ouvir galanteios,
  quisera te ocultar meus obscuros receios
e nunca me irritar por tão fúteis razões.
       Odiando como odeio o ciúme, as discussões,
quisera estar imune ao pérfido veneno
da suspeita, e seguir ao teu lado, sereno
na absoluta certeza de saber-te minha!

Quisera!                                                  
    E, entretanto, o ciúme já me espinha;    
        e me atormenta como uma criança, quando
             cumprimentas alguém que acaso vai passando;
       e sofro intimamente, inquieto, desconfiado,
   a arquitetar perguntas sobre teu passado;
   e (maldoso que sou!) ponho logo maldade,
      se me falas de alguém com ar de intimidade,
         irritando-me ao auge ingênuas desconfianças
            ao te ouvir relembrando apagadas lembranças...
     E porque vou sentindo ao desfolhar dos dias
as dúvidas nublando as nossas alegrias,
     e as rusgas, mais e mais, nos fazendo sofrer,
      e prevendo também que amanhã, sem querer,
talvez o nosso amor em ódio se transmude,
resolvi, - porque tive sempre essa virtude 
      e porque ainda me sobra amor-próprio talvez,
escrever-te...                                                

    E hoje o faço, a derradeira vez!                    

       Renuncio a esse amor. Prefiro assim, e penso
        não ter ido de encontro ao que o destino quer,
               a vê-lo ( eu que o sonhei e o fiz tão belo e imenso),
       vulgarmente acabar como um amor qualquer!



( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. I -  1a edição 1965 )


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