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"
Confidência Amarga "


Ela veio, sentou-se ao meu lado e me disse
em palavras febris, sua história de amor...
Uma história comum, um sonho, uma tolice,
que fizera tão grande e amara com meiguice
a ponto de entregar seu coração em flor...

Falou-me sem sentir, em toda a sua vida
e no amor de alguém que a fez sofrer tão cedo...
Julgava-se infeliz... sozinha... incompreendida,
não sabia a razão por que fora esquecida,
e revelo-me assim seu íntimo segredo...

E cruzou seu olhar tão cheio de amargura   
com o meu olhar surpreso, e num tom muito brando:   

". . .
sei que você é um poeta e aqui estou à procura
de alguém para curar a minha desventura,
meu pobre coração abatido e sangrando . . .

...busquei-o sem cessar... aqui estou quase morta,
arrastando a minha alma após meu desengano,   
venho da minha dor, bater à sua porta,       
porque sei que você tem a voz que conforta
e pode compreender o sofrimento humano...
       
. . . conto-lhe o meu romance, a minha vida, e assim        
faço-o meu confidente, e o chamo meu amigo...       
- não me pergunte nunca as razões por que vim,        
apenas sei dizer que escutei dentro em mim
alguém que me mandou aqui, pedir-lhe abrigo...

. . . confesso-me a você, é apenas confissão.
Não quero ser perdoada, e adoro os meus pecado,
espero uma palavra... um pouco de ilusão . . .
- o poeta é um sacerdote, e a sua religião
manda-o para falar de amor aos desgraçados..."

E silenciou chorando. O seu rosto pendeu.
Mortas nas minhas mãos as suas mãos ficaram.
Num segundo, o silêncio a nós dois envolveu,
depois... sentindo a luz do seu olhar no meu,
- contei-lhe a minha história... e outras que me contaram...

Disse de cor também, versos que ainda nem fiz,
e cheguei a inventar contos que nem sei mais,
- com o tempo... o seu sofrer, lentamente desfiz,
e um dia... - ela de novo, erguendo-se feliz
agradeceu, partiu e não voltou jamais...
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Ela que me chegou triste como uma palma
curvada - vi seguir sorrindo outro caminho,
tão outra... tão feliz... tão mudada... tão calma
que nem reconheceu que eu lhe dera a minha alma,
o pouco que era meu...e que fiquei sozinho...
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...O destino é afinal, irônico e insensível,
tronou-me o confidente da mulher que amei...
E eu para a ver feliz... fiz-me feliz - é incrível...
Sufoquei meu amor... amarguei o impossível...
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Mas quando a vi partir, não pude mais, chorei...


( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. I -  1a edição 1965 )


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