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" Cena à Hora do Poente "
Na sala, sobre o tapete macio e felpudo
de veludo
onde se desmanchou uma encarnada rosa,
ela, inquieta e nervosa,
vai, vem...
- há mais de um quarto de hora, sem ninguém ...
Há mais de um quarto de hora...
Pára. Vai à janela, alonga o olhar lá fora
pela rua silenciosa e vazia...
E vai morrendo o dia
e a tarde é langorosa,
pela rua vazia e silenciosa . . .
É tarde já... O céu que em cambiantes desmaia
atrás de algumas nuvens de cambraia
avermelhadas, no poente
acende a primeira estrela, de repente...
Ela passeia sabre o tapete felpudo
e macio, de veludo,
- ansiosa...
Pára junto a uma jarra no canto da sala
e distraída, despetala
e esmigalha entre os dedos uma rosa...
O relógio de parede, grande, indiferente,
continua marcando os segundos... No poente
a tarde se escondeu
Ela vai à janela, - a noite já desceu
azul-opala, formosa,
mas muito fria...
- e a rua continua silenciosa
silenciosa e vazia
Ela aperta no seio as mãos alvas e finas
mãos que parecem feitas de neblinas...
Ouve bater no peito o coração
descompassadamente,
e inutilmente,
o quer conter com a mão...
- pelo ar, há o tique-taque, igual, indiferente,
do relógio de parede, que no silencio da sala
monologa e fala . . .
Um segundo. ., outro segundo...
Cada um contendo em si que eternidade! Um mundo
de estranha expectativa...
A sua ânsia é tão viva
que ela de novo para,
chega junto ao relógio e de bem perto o encara,
e o seu tormento é tanto
que o olhar turvo se embaça em prenúncio de pranto...
Suas mãos se entrelaçam, se apertam, nervosas,
e da jarra do canto
como que por encanto
algumas rosas
sem querer,
num lírico morrer,
despetalam-se juntas, silenciosas...
É então que na estranha penumbra da sala
há um silêncio maior: o relógio se cala!
- não se ouve o tique-taque indiferente no ar...
Lá fora a noite em sombras flutuantes se embuça...
Ela esconde entre as mãos o seu rosto . . . soluça
e começa a chorar...
( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do
livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. I - 1a edição 1965 )
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