
![]()
*****************************************
" Bonecas ... Bonecos ... "
Uma vez, apanhei a boneca mais rica,
a boneca mais rica e mais graciosa
que a minha prima tinha...
Na Corte, só formada de bonecas,
minha prima a julgava a mais formosa
e a elegera a rainha...
Foi certa vez - ainda me lembro bem,
era um garoto assim pelos seis anos
e por ouvir falar em coração,
quis ver se na boneca tão bonita
existiria um coração também.
E se isso quis saber
e se eu assim pensava,
era porque essa prima me mostrava
um boneco vestido de palhaço,
alegre e folgazão,
por quem - dizia ela muitas vezes -
tinha a boneca um grande amor oculto
e uma grande paixão.
Um dia, apanhei a boneca, e escondido
rasguei o seu vestido
e furando-a no peito com a tesoura,
vi, com surpresa, em vez de sangue humano
só pedaços de pano...
Não achei no seu corpo o que queria
e vendo que a boneca era vazia
e o boneco também,
o que senti na minha alma de criança
explicar já não sei,
- lembro-me apenas, e isso com certeza.
- tenho bem vivo ainda na lembrança -
que não achando os corações no peito
dos bonecos...
- chorei...
II
Hoje. .. vai bem distante esse episódio
nos sem-fins da memória,
e por certo talvez o esqueceria
se você não entrasse em minha vida
transformando o episódio numa história...
Em meu viver, você representou
o papel da boneca;
- eu, simplesmente,
fiz a criança de novo, e ingenuamente
mais uma vez a vida me enganou . . .
Ao descobrir, no entanto, o meu engano
vendo-a tão fútil
linda, mas vazia,
- já não chorei minha desilusão...
Mas fiz - com que tristeza !... - esta poesia,
invejando o destino dos bonecos
que nascem sem coração !
( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do
livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. I - 1a edição 1965 )
*****************************************