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" Quadros de Verão "


                                 ( Aquarelas líricas )

I
Céu limpo. Na alvorada cor de sangue
as estrelas se afundam
e vão perdendo a luz como pupilas baças...
Tudo é luz de repente!... E o céu azul... azul...
de ouro todo se encheu,
nem um vulto lembrando o desenho das nuvens
como errantes fumaças...

A terra é verde... o mar é verde... é verde a vida
que desponta em botões arrebentando a terra. . .

- algazarram em bandos loucos, como folhas
levadas pelo vento em escarcéus
nas estradas sem fim, os pássaros, que os ninhos   
trocaram pelas sombras dos caminhos
e pelas amplas vastidões dos céus...

Salpicando as campinas... sobre os campos
as borboletas de asas multicores   
confundem-se com as flores,   
- e que estranha e que linda confusão!...
(As borboletas, como flores vivas,   
fazem roda pelo ar,   
- e as flores - lembram mortas borboletas
que deixaram as asas pelo chão
e não puderam nunca mais voar!...)

II
As horas rolam... passa o dia... e a tarde
não tarda vai fazendo o céu violeta
- e o calor não sufoca... e o sol não arde...

O poente faz lembrar uma palheta
de exótico pintor,
e o céu, é um quadro cheio de poesia,
é como um poema de policromia
que poeta algum jamais pôde compor!

Há de novo algazarra pelos ramos,
estranhas algazarras
que enchem de sons as árvores inquietas...
e a música e o zizio das cigarras
nas milhares de estrídulas fanfarras
ocultas na ramaria,
espalham pelos céus a orquestração
da sinfonia verde do verão
ao fim de cada dia !...

III
Noite alta... pelas matas sossegadas
os vaga-lumes surgem nas ramadas
como brotos de luz!
No espaço... vão voltando novamente
as estrelas, e em pouco todo o céu
vibra . . . palpita . . . e entre clarões transluz...

Luz no céu... luz na terra. . . E nos tranqüilos
ermos das sombras, sob as copas verdes,
onde o luar raramente se desata,
- há os ruídos - quase música, - dos grilos
que respondem às últimas cigarras
na quietude da mata...

Como um rebanho feito de algodão
as nuvens se amontoam lentamente,
e lentamente, tal como um rebanho,
que entre a relva dos astros caminhasse,
aos poucos vão fugindo.. . vão fugindo
num canto da amplidão.. .

A Lua ora se esconde. . . ora aparece
entre o rebanho imenso... e faz lembrar
uma poça no céu, cheia de prata,
onde os cordeiros todos, vez em quando,
vão de novo os setor pêlos pratear. . .

IV
Calor... não se balança uma ramagem
nem uma vibração
- cigarras... borboletas... passarinhos
pirilampos... estrelas... muita luz!
E no verde de toda natureza
os quadros... e as paisagens de verão
- que eu para os versos, sem querer transpus !...


(Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Bazar de Ritmos" 1a edição1935)

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