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" Partiste
!... Voltarás ?... "
I
Dei-te tudo que tinha - era bem pouco,
sei bem que era bem pouco o que te dei,
- devia compreender como era louco
todo o sonho de amor que idealizei...
Quando passaste à minha porta, um dia,
a procura de um pouco de calor,
ofertei-te a minha alma, então vazia,
- e a minha alma se encheu toda de amor...
Aquela noite. . . - como vai distante !
- sentindo-te em meus braços, infeliz,
ao teu ouvido, como um terno amante,
disse-te coisas que ninguém mais diz . . .
Senti-te reviver... Dei-te outra vida...
Muitas horas velei teu sono - e assim,
com palavras de amor, adormecida,
tu te apoiaste a noite inteira em mim...
Quando o céu se tingiu com o vir da aurora,
eu, cansado, talvez... adormeci...
ouvindo o canto dos pardais lá fora...
Ao despertar... - senti a tua ausência ...
E desde então eu nunca mais te vi,
nem cruzaste jamais minha existência !...
II
Hoje tenho a minha alma diferente,
uma alma triste que não sei se é a minha,
- e o que sinto, bem sei - e o que ela sente
é a dor imensa de se achar sozinha...
Na saudade infinita que a consome
não tem ninguém à sua cabeceira,
e vai morrendo a murmurar um nome
numa prece de amor, que é a derradeira...
Vai dizendo o teu nome com tristeza,
e eu sofro... e tenho pena de a escutar.
- porque a vejo morrer, tendo a certeza,
tendo a certeza que ainda vais voltar...
Fiquei só Tu deixaste-me sozinho,
mas sentirás a falta dos meus braços,
e hás de voltar ansiosa de carinho...
No teu andar por essa vida em fora,
- ha de a saudade dirigir teus passos
para a pousada onde estiveste outrora...
Voltarás... E por certo arrependida
baterás novamente à minha porta,
a mesma, onde uma vez foste acolhida...
Baterás... E ninguém há de atender...
É que a minha alma, então, já estará morta,
- cansada de esperar... e de sofrer!...
(Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Bazar de Ritmos" 1a edição1935)
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