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" O Meu Poema Sem Nome "


                                             ( Nietzscheano )

Nasci trazendo na alma estranha confusão
fujo às vezes da vida e não desejo a morte,
- adoro o meu silêncio... odeio a multidão...
e desespero achar quem me ame e me conforte

Há instantes em que sinto uma necessidade
de fugir... mas alguém me diz:- deveis conter-vos !
E é a custo que consigo em tão forte ansiedade
amarrar-me e prender-me com os meus próprios nervos...

Nessas horas preciso a presença da Ausência       
e vivo onde outro alguém morreria de tédio,       
- na solidão retorno à calma e à sã consciência        
e encontro no silêncio o meu maior remédio   
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Tenho em Nietzsche um irmão... vejo-o se os olhos cerro,   
- a cabeça entre as mãos convulsas, pensativo,   
cérebro iluminado e aceso corno um ferro   
vermelho, cor de brasa, incandescente e vivo!

Sinto-o, nas convulsões de uma tortura imensa,   
incompreendido e só, num meditar profundo,   
só sabendo que existe porque sofre e pensa,   
e a abismar-se sozinho no seu próprio mundo. . .   

Vejo-o, - seu ar não sei se é o de um viciado de ópio
seus olhos nada vêem... olham para o interior...
- e o Pensamento, é como estranho microscópio   
por onde ele examina a sua própria dor...

Selvagem. . . quase louco, a buscar-se a si mesmo,
sem amores que o prendam, afeições que o domem,
- um Diógenes genial, a andar inquieto e a esmo,
na incansável procura do seu super-homem!

E' Nietzsche o meu irmão!... compreendo a sua fuga,
o seu egocentrismo e o seu isolamento;
- há instantes em que nada o "eu" do meu Ser subjuga,
e é cósmico e fantástico o meu sofrimento.. .
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Procuro a solidão... busco-a porque preciso,
sem saber afinal as causas e as razões,
sentindo o coração no peito, como um guizo
bater, sacolejando as minhas pulsações...

Os instantes em que eu vejo como demônios
os homens, e sem crer, mostro-lhes sempre a cruz,
- e me quedo a escutar o rumor dos neurônios
que cada pensamento ao despertar produz. . .

Depois... tento fugir até dos próprios pés,
não quero ver ninguém... nem ouvir um conselho...
- certa vez blasfemei: -- quem és? sim, tu quem és?
E era eu a me fitar ante o cristal do espelho...

Desde esse dia, odeio os espelhos e os aços,
quero estar só, bem só, nos instantes de fel,
- até que a morte faça o meu Ser em pedaços
como em pedaços fiz o meu espelho fiel...

0 ruído me enlouquece !... A multidão me assombra!
Adoro o meu silêncio de silêncios feito,
- às vezes me incomoda a minha própria sombra
e irrita-me o pular do corarão no peito...

Enfastio-me até... da própria companhia,
faz-me mal escutar minha respiração,
- e é tão grande... tão funda... essa obsessão doentia
que eu quisera existir como uma abstração!...


(Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Bazar de Ritmos" 1a edição1935)

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