
![]()
*****************************************
" História
De Um Orgulho "
Conheci-a orgulhosa, a fronte erguida e altiva,
nessa expressão de império e superioridade,
- possuía uma atitude estranhamente viva
e a sua maior glória era fazer-se esquiva
ao domínio de alguém que a amasse de verdade
Gostava de saber-se amada - e o seu olhar
tinha então certa luz de incontida alegria,
- mas seu prazer maior, notava-se em seu ar
ousado - era o prazer de poder dominar,
já que nunca ao domínio se curvar sabia...
Linda, era inconstante, em suas afeições,
e quanta história ouvi falando em seus amores ...
Culpavam-na da dor de muitos corações
que ela fizera encher de vagas ilusões
para os despetalar como se fossem flores . . .
Tinha sempre um sorriso a lhe bailar na boca,
num momento era criança e logo após, mulher...
- "É adorável..." dizia alguém, e um outro: - "É louca..."
Trazia uma atração que bem sei não é pouca,
e havia no seu todo um mistério qualquer...
II
Foi assim: no momento em que a encontrei
senti que seu olhar foi frio e displicente,
julgava-se rainha . . . E eu então como um rei
displicente também com o seu olhar cruzei
e falei-lhe num tom cortês e indiferente.
O tempo foi passando. A vida foi seguindo
o seu curso normal, e a encontrei muitas vezes...
Uma festa... um passeio... um chá... E um dia lindo
quando estávamos sós, ela estranhou sorrindo
que só me conhecesse apenas há dois meses...
Eu (nem sei mais por que... ) - talvez por prevenção
tratava-a sempre bem - mas tudo o que dizia
tinha oculto um sentido incerto, onde a afeição
guardava quase sempre uma vaga expressão,
com um pouco de altivez e um pouco de ironia...
E concluí por fim, que na minha presença
ela não tinha mais o antigo ar superior...
Cerrava o seu olhar, assim como quem pensa,
e notei, muita vez, uma ternura imensa,
bem dentro da sua alma, a inundando de amor...
............................................................................
Uma tarde . . . nós dois, a sós, nos encontramos,
nos seus lábios havia a inquietação de uma ânsia,
nos seus olhos dois sóis. . . nos seus braços dois ramos,
- mudos... por muito tempo, unidos nós ficamos,
olhos longe no céu, perdidos na distância...
Ia a noite chegando . . . E entre clarões, o poente
era um lenço de adeus, colorido, a partir...
Nessa hora, junto a mim, senti seu rosto ardente,
e havia no seu corpo uma alma diferente
que não sabia mais negar... nem discutir...
Estreitei-a submissa... meiga . . . quase escrava . . .
a boca se entreabria úmida de desejo,
- pelos olhos, sua alma inteira se entregava
e enquanto a sua mão na minha desmaiava
desfaleceu vencida... e rendeu-se ao meu beijo...
I I I
Conheci-a orgulhosa, altiva e arrogante,
nesse estado de alguém que não sabe o que quer...
Hoje, tenho-a de encontro ao peito, terna e amante,
- maldizendo esse tempo em que foi dominante...
- bendizendo este tempo em que é apenas mulher !...
(Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Bazar de Ritmos" 1a edição1935)
*****************************************