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" Remorso... "
Eu perverti a tua ingenuidade
eu maculei tua inocência
eu pus sobre o teu vulto suave como um lírio
a sombra do martírio,
- o peso de uma cruz...
Povoei de sombra e de maldade
a tua vida
- tua vida era pura como o céu e a luz!
Eu fui o garoto mau
que, desprevenidamente,
toldou com as mãos a água clara
a água límpida
da corrente...
E da tua alma de criança
e da tua figura de boneca
fiz um vulto de mulher igual a tantos outros
por quem já cruzei...
Teu destino...
Teu destino era um romance branco
que eu quis ler mas não soube
e ao folhear
manchei...
Havia de pensar que minha experiência
não falharia;
que a tua pureza era hipocresia
tua inocência falsidade
e até supor
que a expressão de abandono de teus lindos olhos
não era amor!
E havia de sofrer a infinita amargura
de saber que por mim deixaste de ser pura,
e por ingenuidade e inocência entregaste
a tua alma e o teu corpo
para eu macular...
Preferia nem sei, preferia mil vezes
que não existisses
mil vezes preferia nunca te encontrar...
Eu perverti a tua ingenuidade
eu maculei tua inocência
e ainda queres perdoar-me o mal que te causei
e tudo o que te fiz,
- deixa que eu sofra e amargue... porque bem mereço
ser infeliz!
E poupa-me desta forma, tu que é boa e és pura
a cruel humilhação
e a suprema amargura
do teu perdão!
( J.G. de Araujo Jorge - coletânea -
"Poemas do Amor Ardente " 1a ed. 1961 )
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