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"
Fantasia  nº1"
                                                                     ( Quero Rubis de Sangue )


Quero rubis de sangue, como gotas vivas
da aurora,
a ouvir cantar ,o peito o coração
quero esmeraldas verdes como as de Paes Leme
e lendas imaginárias,
quero cidades novas onde ninguém mora
cidades extraordinárias!
-solidões de florestas, amplidões de campos,
e a alegria da escuridão
onde a noite ainda a acende os fogos de salão dos
pirilampos!

Quero envolver os ombros brancos e nus
da minha amada
(e que parece, foram modelados
com a areia branca embebida de leite e de luz),
-com a capa de pelúcia da noite azul prateada!
Quero apanhar a Lua, quando ela pousar
no cume da montanha
para seguir sua marcha pela Noite a dentro
sonâmbula e calada;
-quero a Lua! prometi levar a Lua branca
com São Jorge no centro
à minha amada!


Quero o sol
porque brinco com o sol manhã cedo
quando ele pula o muro verde das serras
trepa na minha janela,
entra pelo meu quarto,
e vem bater nos meus olhos para me acordar...
Quero o sol! porque o sol ajuda a alma da gente
a se sentir contente!
-e a viver
a sorrir,
a esquecer,
e a cantar!

Quero dormir bem junto da janela aberta
para sentir a Noite como uma cuia mágica
sobre meus olhos emborcada,
-bem junto da janela escancarada
dos meus desejos,
por onde fogem teus ais, teus arrulhos, teus sonhos
e a canção sensualíssima
dos beijos!

Quero um braço apoiado ao meu, calmo e sereno,
um corpo no meu corpo,
quero viver e amar,
-que essa vida é tão pouca
e o mundo tão pequeno!
-quero na minha boca o gosto de outra boca
e os sonhos e os anseias das minhas mãos
hei de satisfazê-los da maneira mais louca!

Serei um fauno livre a buscar-te nas selvas,
serás a ingenuidade cheia de receios,
e transbordando de beijos os teus seios
servirei o teu corpo ao meu corpo, num leito
de relvas,
Próprio
próprio
para festins pagãos!

Quero despir inteiramente
a tua carne branca e luminosa
como a Lua,
e eu despir-me também, e inteiramente nus,
-deitar-te sobre o chão, braços abertos, nua!
para morrer de amor nos teus braços em cruz!


Dar-te a beber nas mãos, a água pura das fontes
das fontes frias da mata
que ninguém sabe aonde vão,
e parecem teu riso a cantar pelas pedras
sorrindo no chão ...


E ver teu corpo belo sobre um leito de folhas
abandonado,
à carícia de aragem dos meus beijos
quando nos encontramos,
-caído como uma fruta madura
da altura
dos ramos,
-para as minhas mãos!
-para os meus desejos!

Cobrir-te o corpo de flores
que as mãos pródigas das árvores
vão soltando ao léu,
com ciúme da própria luz que acaricia e beija
e adejar ao teu lado como uma ave inquieta
à procura de mel!

E os pássaros, hão de dizer com certeza, nos vendo
lá das folhagens,
baixinho:
- é estranho onde aqueles dois foram fazer seu ninho!


Correremos pois
os dois,
pelos varadouros
e extensas aléias
das matas cheias de sombras e de flores
debruadas de verdes rendas ...
- hás de soltar ao vento os teus cabelos louros,
e debruçada sobre o lago quieto onde dormem ninféias
lembrarás, refletida nas águas, a Yara
das lendas ...


De dia
os teus cabelos são louros, são louros
impregnados de sol!
- e gosto de prendê-los com cordões de flores
de silvestres perfumes!
De noite
os teus cabelos são negros, são negros,
impregnados de sombra!
- e gosto de amarrá-los com cordões faiscantes
dos vagalumes!
Quando em teus cabelos louros
ou negros,
mergulho o rosto,
- parece:
que faz sempre sol-posto!
que a noite mansamente nos meus olhos desce!
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Parece
que tudo roda, que tudo foge, que tudo cresce
e desaparece ...



(  J. G . de Araujo Jorge  - coletânea -
"Poemas do Amor Ardente" 1a ed.1961)


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