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" Estou Olhando as Minhas Mãos "




Estou olhando as minhas mãos agora, te escrevendo,
mãos loucas,
te mandando mensagens como um telegrafista
que se pusesse a transmitir para a Lua...

Estas mãos não foram apenas as mãos que te acariciaram
que te seguraram tantas vezes a cabeça,
pelos teus  cabelos,
como uma taça em que se vai beber...

...que te conheceram toda, e ante a tua surpresa,
te descobriram
tu que não sabias mesmo que existias,
até aqueles momentos em que te achei como um
tesouro ignorado...

estas mãos que olho, batendo nos teclados, sob a luz
como duas estranhas aranhas tecendo poesia na noite
em pensamentos vãos,
tecendo uma inútil teia que já não prende mais,
-elas guardam tantas lembranças em sua táctil
memória
de mãos...

Eram elas que, trêmulas e ansiosas,
todas as vezes, como a primeira vez,
participavam do decisivo instante:
davam a volta na chave, enclausurando-te, avarentas,
e então eu podia pensar, com uma louca alegria antecipada:
-já está comigo, é minha!

Eram elas que em sua impaciência, cegas, tantas vezes
complicaram
a minha ânsia natural de o mais depressa possível
querer ver-te nessa beleza de sonho
com que Deus te vestiu...

E foram elas, também, que algumas vezes, recalcitrantes,
- sem aceitar o tempo e sem tê-lo visto passar -
tão sem jeito e sem vontade, só a custo conseguiram
abotoar em teu vestido aqueles colchetes inacreditáveis.

Estou olhando as minhas mãos, e se elas não fossem minhas,
palavra de honra que não acreditaria em nada disso
que  estão pensando
e temiam em te escrever.



(  J. G . de Araujo Jorge  - coletânea -
"Poemas do Amor Ardente" 1a ed.1961)


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