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" Descobrimento "


Tu foste em minha vida como a ilha deslumbrante e imprevista
na rota de um navegante:
- a antevisão sonhada de uma conquista distante...

Eu viajava pelo mar de outros corpos, na volúpia
dos que nasceram para o amor do mar ...

Teu corpo me atraiu como o primeiro mistério do oceano
aos olhos indagadores
de aventureiros e descobridores.

E eu velejei ao temporal de indomáveis desejos ...
Ao vento de tuas carícias violei as ondas de teu corpo
com a sofreguidão e a ousadia das quilhas nas águas,
- e aportei à ilha do teu amor, por uma noite de trópico
que era a noite de teus cabelos ...

Quando pisei em terra, tinha os lábios salgados
de oceano,
ímpetos de ventos nos braços nostálgicos
e arrepios na epiderme impregnada de sal ...

Cheguei em teu corpo com a alegria do descobridor
em terras estranhas,
- o olhar incendiado de posses e festas,
e diante da beleza imprevista do teu amor
escalei os cumes de todas as montanhas,
- devassei o mistério de todas as florestas ...

Ouviste atônita o rumor de meus passos
a canção de minhas palavras, ignoradas e belas,
cheias com o vento da imaginação, ao teu olhar nativo,
como brancas e nunca vistas velas
de caravelas...

Tiveste gestos espavoridos de pássaro assustado
e tentaste fugir ao "homem branco",
surpresa,
a ferir o corpo em ramagens e espinhos,
- mas caíste afinal, emaranhada e presa
em minhas mãos que te descobriram e conheceram
como caminhos ...

Só eu sei o encanto da tua beleza indevassada,
do teu pudor de água clara nunca turvada
tremendo em teu olhar,
e a expressão da índia assustada, atraída pelo amor,
que quer fugir à posse do descobridor
quer fugir, com temor,
e se deixa enlaçar...

Me entregaste teu beijo como uma oferta generosa
e em teus lábios senti o gosto da terra nova,
me envolveste de sombras amenas e macias,
me estendeste o lençol branco das praias grandes e vazias,
e vencida afinal - (ah! teus olhos, ainda estou a vê-los)
me deste a tua nudez que era como o luar flutuando
na noite de teus cabelos
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Tú foste em minha vida essa ilha deslumbrante que  descobri
que devassei e possuí
e aonde nunca mais pude voltar...
Levou-me o vento a outras terras - o vento do destino -
e tu ficaste distante, e te perdi para sempre,
desarvorado sobre o mar...


(  J. G . de Araujo Jorge  - coletânea -
"Poemas do Amor Ardente" 1a ed.1961)


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