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"DEPOIS..."

Pronto... Já agora seremos como dois irmãos
unidos pelo amor que há pouco nos venceu...
Meus sentidos não tocarão tua beleza
nem sentirás a aspereza do meu corpo de encontro ao teu. . .

Há em ti a quietude das águas remansosas e protegidas
e eu sou como um barco de velas recolhidas
guardando no cordame dos mastros, a nostalgia erótica dos ventos
e no bojo, ressoante, o rumor impetuoso do mar alto...


Pronto... Já agora o meu pensamento ficou límpido e sereno
como um céu sem nuvens depois que o vento passou
num temporal...
- e consigo te amar - um amor quase fraterno
e ameno, -
que fica à margem do bem... que paira acima do mal!

Já agora seremos apenas como dois irmãos...

Adormecerás em meus braços, - como a tua mão que
ficou em minhas mãos -
e eu ficarei a enlaçar-te, com os lábios em teus cabelos
numa ternura imensa,
- esquecido da tua presença...
Tens um vago olhar de sonho.... e devo ter um vago
olhar de criança,
e envolve-nos essa paz, essa serenidade,
do mar calmo depois da chuva, e de um céu de bonança
depois da tempestade...

Já não me ouves, bem sei... se a tua cabeça sobre meu ombro
pendeu, em abandono...
- meus sentidos não acordarão tua beleza
nem sentirás a aspereza do meu corpo perturbar teu sono...

Pronto... Ficaste nos meus braços, quieta, adormecida,
como dentro das minhas mãos as tuas mãos...

Estranho o nosso amor... Interessante a vida...

- Há pouco, loucos, como dois amantes!
- Agora, puros, como dois irmãos!


(  J. G . de Araujo Jorge  - coletânea -
"Poemas do Amor Ardente" 1a ed.1961)


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