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"
Canto Primitivo"

Inveja, sim,
do lavrador, do colono,
que violentou o chão e empurrou as florestas
para o cume das montanhas, assustadas
pelo fogo das queimadas ...

Que plantou os toros
e colheu a casa,
simples, sozinha, perfeita. . .
- o sol dançando em torno, - e à janela, vê seu mundo
como um Deus, e olha sem crer a sua mão direita.

Inveja, sim,
da pureza inicial, bárbara e rude
do amor sem sucedâneos,
da beleza da terra sem pudor,
acordando com as colheitas douradas
ao primeiro sol,
e dormindo com as plantações quando as montanhas
estendem
como franjado xale,
seus véus de sombra sobre o vale.

Ah! ser puro como as plantas,
como a terra,
ter o coração forte como os córregos
que estrugem pelas pedras, nas gargantas
da serra.

E possuir a vida sem complexos
instintiva, sem razão,
como o touro-garanhão que na pastagem
à luz do sol, urrou para os céus
o Canto da fecundação!


(  J. G . de Araujo Jorge  - coletânea -
"Poemas do Amor Ardente" 1a ed.1961)


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