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"Angústia"



Há uma estranha beleza na noite!... 
Há uma estranha beleza...
Oh, a transcendente poesia
que verso algum traduz.. .
- A via-látea inteiramente acesa
parece a fotografia
de um tufão de luz!

(Quem seria,
quem seria
que pregou lá no céu aquela imensa cruz?!)

Que infinita serenidade! ... Que infinita serenidade
misteriosa,
nesse infinito azul dos céus e em tudo mais:
- nos telhados, nas ruas, na cidade...
(Só os gatos gritam na noite silenciosa
sensualíssimos ais!)

Meu Deus, que noite calma!  E aquela trepadeira
feminina e ligeira
veio abrir bem na minha janela
uma flor, - como uma boca rubra e bela
que eu não terei,
- e ainda sinto nos lábios um travo nauseante
do amor, que, faz bem pouco, há apenas um instante,
paguei...

E o céu azul assim!... E essa serenidade!
Silêncio.  A noite, o luar tão claro o luar lá fora...
Juraria que há alguém não sei onde que chora...

Ob, a angústia invencível que me prostra,
invade
e me devora...



(  J. G . de Araujo Jorge  - coletânea -
"Poemas do Amor Ardente" 1a ed.1961)


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