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 "
A Que Há de Vir "
                                                           Vinicius de Moraes
                                                     

Aquela que dormira comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.

Ela abandonará, pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios...
Ela é a querida da minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijara longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
Temerá minhas cóleras e se aninhará no meu sossego,
Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando do olhos claros
Se oferecendo a minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova de meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
E a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração.
Ela é a minha poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.

Ela é o amor vivendo de si mesmo

É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.

Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
E que será minha, só minha, como a força é do forte
e a poesia é do poeta.


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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