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" Carta "
Rui Barata
Chico, não é o poema que me traz aqui neste momento,
Não é o poema Chico é este cansaço,
este medo de ter tantos caminhos,
tantos e tão poucos satisfazem.
Não e o poema Chico é o desejo de contigo sair por essas ruas,
saber em qual esquina envelhecemos
porque - sabes Chico - vazio é o nosso olhar de toda as promessas
e nossas almas tem para mais de mil e tantos anos.
Anda Chico, não me negues a graça da presença.
Se eu te pedir a lua - por favor vai correndo buscar,
se eu te pedir a estrela - manda a empregada comprar,
se eu desejar a morte - porque fazer-me esperar?
Vamos Chico, toma o teu anjo e vem que este cansaço
é tão grande, é tão triste, é tão pesado,
muito maior que a solidão, maior que o mundo,
muito maior que o tédio e que o pecado.
Vamos Chico, esta noite floresce na legenda que ét ua.
Ninguém estranhara se nos beijarmos,
ninguém gargalhará se então chorarmos
como dois bêbados que se encontram na rua.
Vamos Chico, leva-me nas asas do teu anjo,
tira-me do Keats, arrasta-me do pranto
pois loucura maior é impossível esperar
estas horas longas, estas longas horas
que jamais, jamais poderemos calar.
Anda Chico, quero ver de novo o mar
nosso rumo é o cemitério
onde iremos descansar.
Plantaremos nossas flores,
pintaremos nossa cruz,
abriremos nossa cova
e depois - pela madrugada
quase mortos de cansaço
deitaremos calmamente
a espera do milagre.
Vamos Chico, dá-me o teu braço que estou cheio de pecados,
dá-me teu ombro que este nojo é bem maior
As orações, poesia, amor, não satisfazem
se me desamparares, tombarei.
Vamos Chico, a memória dos versos não comove
guardemos o epitáfio pois degrada
deixemos este crime para os vivos
que a poesia não resolve nada.
Vamos Chico, quero cobrir meu Deus de desespero,
vamos depressa antes que o sol me chame,
a outro mistério que não sejas tu.
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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