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 "
Fragmentação do Poeta "
                                                             Pedro Avelino




Quando a noite envelhecer ainda mais,
e o dia for mais novo ainda.

Quando as rosas apenas forem a essência dos botõe
e as nuvens, de tão leves, invisíveis.

Quando a transparência do ar e do céu
for tão grande que os cegos possam ver
e que as estrelas matutinas
sejam como flores por cima de nossos cabelos.

Quando o canto dos pássaros
e os rumores e o borbulhar do mar
e os gemidos e as dores
se confundirem,
e um só canto se ouvir,
incomensurável.

Quando o sangue derramado
tiver o mesmo sentido do orvalho benfazejo
e a asa que se agita,
o gesto que se esboça,
o tremor do ínfimo inseto,
forem um mesmo inefável movimento.
Quando qualquer palavra
pronunciada a esmo,
a mais dura, a mais baixa,
a mais bela,
tiver o mesmo extraordinário sentido.

Quando apenas um coração bater
e a compreensão for como um óleo santo
ungindo todos os seres

então o poeta se encontrará,
se fragmentará em mil pedaços
e se dispersará para sempre.



(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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