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 "
RUMO "
                                                             Paulo Bentes


Meu irmão poeta;
Já assistiu o enterro
de todos os rouxinóis,
de todos os cisnes,     
de todos os corvos,      
de todos os pardais...    

Vimos caírem todas as flores
das cerejeiras
e morrerem todos os ciprestes
e todos os carvalhos seculares
que enchiam de poesia
europeistas
que nos legaram...

O resto nós fizemos:

Esquecemos os flocos de neve
que nunca baixaram
sobre os nossos telhados.

As árvores depenadas
pela inclemência
dos outonos.

Os lobos famintos que farejavam
rebanhos de ovelhinhas mansas
e pastores ingênuos
tocadores de flauta...

A nossa poesia
hoje
tem outras cores
e outra vida.

Já não fala mais
em aldeias tristonhas,
em trigais loiríssimos e dóceis
às lambadas do vento,
em lareiras crepitantes
e
em historias singelas
de campônios humildes.
As águias reais
escuras, agressivas,
cederam lugar
a realeza das garças
alvíssimas e esbeltas
que voam
serenas
pelas tardes iluminadas...

Outros olhos
outra alma
outra sensibilidade
nasceram.

Nossos olhos já se apercebem
das araras vermelhas e azuis,
dos verses papagaios barulhentos
e dos maguaris compridos
que sonham
numa perna só
à beira dos Lagos tranqüilos.

Os bosques de velhas faias morreram.

As neves se derreteram.

E vimos então a existência
do sol amarelo
e arrogante
do trópico.

Vimos as nossas bananeiras
bonitas
esfarrapadas
e as palmeiras brilhantes
cheias de cachos maduros . . .

Os rios selvagens engrossaram
e passaram correndo,
mais belos do que os tímidos regatos
das velhas terras
decadentes
e tristes...

As histories de bruxas
e de fadas
foram varridas
e vieram as iáras,
o caipora,
o saci
e a matinta-pê-rêra...

Está nascendo o Brasil...


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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