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 "
Traços de Deus "
                                                             Pádua de Almeida


Vós que soldais os trilhos, alta noite, entre fagulhas,
enquanto os outros dormem;

Vós que estendeis as galerias de carvão, rasgando a rocha negra,
com os pés submersos n'água;

Vós, que subis aos fios relampagueantes, entre as torres
das usinas de força, em plena tempestade;

Vós, que saltais no arame e nos trapézios oscilantes
dos circos, entre o ruído surdo dos tambores;

Vós, que fazeis correr nos túneis as locomotivas,
ante as fornalhas, seminua, suando centelhas;

Vós, que pendeis das vigas dos arranha-céus,
cegos de cal e tontos de reflexos de aço;

Vós, que, do topo das "magyrus", mergulhais nos quarteirões em chamas,
escafandros de incêndios;

Vós, que . . . em silêncio.. . à luz soturna do hospital .. .. por entre os corredores
que não tem fim... vindes trazer o vosso sangue a alguém que nunca viste;

Vós que vagais pela penumbra infecta e retorcida dos canos
dos subsolos, nas cidades;
e vós, também, que, às chicotadas das rijas cordas dos velhos sinos,
sangrais o rosto . . . o peito . . . as mãos . . . polichinelos do ar;

sim, todos vós,
vós todos, meus irmãos,
é que escreveis, com a vossa dor e o vosso e4oryc, a Bíblia verdadeira.

E Deus esta em vós;
em vossa sombra é que distingo os traços d’Ele.

Se vós moveis, ele se move:
Por isto é que sofreis e que sois grande.


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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