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" Nasci Para Este Século "
Pádua de Almeida
Descendo às minas de carvão, roçando as cordas dos guindastes,
indo às caldeiras dos "steamers",
recolhendo nas mãos as bolhas negras do petróleo
e nas faces a luz das centelhas aflitas dos fornos siderúrgicos,
nasci para este século.
Minha imaginação, - de antena a antena, - entre relâmpagos zunindo
nas redes dos "broadcastings",
se espalha em fluxos a refluxos
de vibrações candentes.
A minha carne e o ferro são irmãos.
Lateja no meu sangue, em batimentos surdos de delírio,
o estanho derretido que circula
pelas artérias fumegantes das linotipos.
Os meus pulmões e as minhas veias rebeladas
pulsam no ritmo das polias e dos dínamos,
aos silvos das bobinas que se estiram
- com suas teias de aço, a rodopiar, asfixiando a Terra,
como tentáculos de polvos, a girar.
A minha carne e o ferro são irmãos.
As lançadeiras de milhões de teares, - incessantes, -
trabalham nos meus nervos.
E os canos dos gasômetros,
- encharcados de fumo a escuridão, piche, silêncio e cinzas,
cravam suas raízes tumultuárias ,
em meu subconsciente.
A minha carne e o ferro são irmãos.
Não morrerei enquanto as máquinas viverem.
Sou aquele que sente em si a angústia
de todos os motores...
Rotativas, canhões rodam em meu destino.
E rodarão, até que um dia o Mundo estale
as suas engrenagens todas
e pare, num soluço, estrangulantemente,
seus cilindros, que descem . . . para o abismo . . .
A minha carne e o ferro são irmãos.
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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