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" Homo Sum "
Oswaldino Ribeiro Marques
Há nos meus ombros vestigios de asas,
Guardo zeloso uma rica herança de vôos;
Não esqueci, de todo, os segredos da levitação,
E me vanglorio de flutuar ainda como leve paina no espaço!
Tem sua obscura razao este ingenuo amor pelas nuvens,
Esta infantil ternura pelas franzinas borboletas,
E o orgulho de atirar o rosto para as estrelas.
Mas, ai! apalpo no meu cóccix também uma cauda atrofiada,
Que em vão tento dissimulo e dissimulo com meu enganador manto
celeste, Besta e anjo um meridiano me corta em zonas de luz e treva,
De um dos meus lados nasce a aurora,
O outro é ulcera de onde jorra a noite.
Ai! Que desgraça ser o antípoda de si mesmo!
Viver se despenhando em violentas diagonais de contradições;
mão pura e a impura pendentes do mesmo tronco.
0 olho cego e o são coexistindo na mesma face.
O lábio podre e o eterno modelando estranhas palavras híbridas.
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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