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" Santana da Barra do Rio das Velhas "
Nilo Aparecida Pinto
Santana da Barra do Rio das Velhas,
Antiga senhora de um vasto tesouro...
Como é que deixaste, Santana da Barra,
Que os homens do mato levassem teu ouro ?
Como é que deixaste? Se é fato o que dizem,
Que as mocas antigas guardavam recato,
Por que é que entregaste teus peitos de virgem
À fome lasciva dos homens do mato?
E, agora, velhinha, velhinha, velhinha,
Que santa pobreza nos olhos espelhas!
E, outrora, nadavas nas jóias das arcas,
Santana da Barra do Rio das Velhas!
Foi praga dos negros, Santana da Barra! . . .
Foi praga dos negros... pois rezam as lendas
Que, a ferro, marcavas as peles humildes
Das velhas mucamas das tuas fazendas...
Seria verdade? Segundo se fala,
Os ventos, ladrando, nas ruas desertas,
Inda hoje recordam, nos doidos estalos,
Os relhas cantando nas chagas abertas...
E até tua lua devota me lembra
Ser Nossa Senhora que, ouvindo esse açoite,
Andasse curando - madrinha dos negros -
As chagas de estrelas do seio da noite! . . .
E, agora? E a legenda daquele paulista
Que, um dia, ao apelo secreto da mata,
Deixou sua dama, que nem D. Sancha,
Vestida de ouro, coberta de prata. . .
Seria verdade? Já morta a patroa,
Sua alma entre as ruínas do Engenho ficou...
La vive esperando, com os olhos na estrada,
O amante das selvas que nunca voltou!. . .
Seria o teu caso, Santana da Barra? . . .
Assim os paulistas, os bravos de outrora,
Rasgaram-te as. veias, beberam teu sangue,
Florestas a dentro, campinas afora...
E, agora, velhinha, voltando ao recato,
Que Santa pobreza nos olhos espelhas! . . .
Por que te fiaste nos homens do mato,
Santana da Barra do Rio das Velhas?! . . .
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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