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" Versos Íntimos "
Nelson de Araujo Lima
Inda que, de olhos sábios,
Veja na vida uma pesada carga,
Procuro nunca ter, à flor dos lábios,
Uma palavra amarga!
Inda que, escarnecido
Por ser indiferente e diferente,
Jamais me sentirei arrependido
De sonhar no passado e no presente!
Inda que, o mundo imponha
A coroa de louros da vaidade,
Nunnca, entre os homens, sentirei vergonha
Da minha melancólica humildade!
Inda que, revoltado !_
Contra a injustiça e contra a ingratidão,
Sinto-me bem por nunca haver guardado
Ressentimentos em meu coração!
Virtude? Não. Bem sei... Ninguém se iluda!
É que nasci assim porque Deus quis...
O poeta é sempre espírito; não muda,
Nem sabe se é feliz ou se infeliz!
Inda que, sendo pobre
Por ser tão pobre não me mortifico...
Pois, no fecundo céu que a terra cobre
Há mais estrelas para o olhar do pobre!
E menos luz para a ambição do rico!
lnda que, de alma cheia
De imperfeições da alma humana
Eu sofro, sem querer, a dor alheia
Quando, nas horas de meditação.
Com verdadeiro espirito cristão
Desejo amar aquele que me odeia.
E, enfim, na mágoa intensa
De haver na vida, errado muita vez,
Na angústia de quem ama e de quem pensa
Sinto no sofrimento a recompensa
De todo o bem que minha mão não fez !
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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