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 "
O Tambor "
                                                             Martins d' Alvarez


No terreiro da casa do Ioiô,
a negrada, festiva, aquece o tambor.

Homens como pulga!,
mulheres como trinta!

Iaiá sentada no alpendre,
sisuda, gorda, bonita,
casaco novo, de rendas,
todo entrançado de fita.

Ioiô passeando, prá lá e prá cá...
Assuntando, pitando, olhando, vendo
a negrada gozando!

A negrada folgando!
A negrada bebendo!

E o tambor irrompe, zabumba, retumba:
- uruputum, uruputum, uruputum, uruputum . . .

os negros se acercam . . .
o cerco se aperta . . .

mãe Preta pula pro meio,
se enrosca, se estira,
pega na ponta da saia,
enfia as mãos nos quadris,
levanta a cara, dengosa,
dança miúdo, peneira,
dá volta e meia, ligeira,

fasta o pé, levanta a mão,
manda uma punga atrevida
que vai morrer, entre gritos,
na barriga do Pai João.

E o tambor:
- uruputum, uruputum, uruputum. . .
Tocado a murro e dançando a soco.

Pai João arremete,
cai de cócoras, se levanta;
pisa em ovos: - sapateia...

Pisa em brasa: - treme todo. . .
Vira bicho, fica doido,
dá cabeçadas de cego,
balança os braços, tesoura,
foge às pungas da Mãe Preta,
tira o corpo, negoceia,
arruma os quartos prá trás,
mete a umbigada na preta,
que a preta rola na areia.

Gralhada... Barulho... Zoada... Sussurro...

E o tambor:
- uruputum, uruputum, uruputum. . .

Dançado a soco!
Tocado a murro!


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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