
![]()
*****************************************
" O Tambor "
Martins d' Alvarez
No terreiro da casa do Ioiô,
a negrada, festiva, aquece o tambor.
Homens como pulga!,
mulheres como trinta!
Iaiá sentada no alpendre,
sisuda, gorda, bonita,
casaco novo, de rendas,
todo entrançado de fita.
Ioiô passeando, prá lá e prá cá...
Assuntando, pitando, olhando, vendo
a negrada gozando!
A negrada folgando!
A negrada bebendo!
E o tambor irrompe, zabumba, retumba:
- uruputum, uruputum, uruputum, uruputum . . .
os negros se acercam . . .
o cerco se aperta . . .
mãe Preta pula pro meio,
se enrosca, se estira,
pega na ponta da saia,
enfia as mãos nos quadris,
levanta a cara, dengosa,
dança miúdo, peneira,
dá volta e meia, ligeira,
fasta o pé, levanta a mão,
manda uma punga atrevida
que vai morrer, entre gritos,
na barriga do Pai João.
E o tambor:
- uruputum, uruputum, uruputum. . .
Tocado a murro e dançando a soco.
Pai João arremete,
cai de cócoras, se levanta;
pisa em ovos: - sapateia...
Pisa em brasa: - treme todo. . .
Vira bicho, fica doido,
dá cabeçadas de cego,
balança os braços, tesoura,
foge às pungas da Mãe Preta,
tira o corpo, negoceia,
arruma os quartos prá trás,
mete a umbigada na preta,
que a preta rola na areia.
Gralhada... Barulho... Zoada... Sussurro...
E o tambor:
- uruputum, uruputum, uruputum. . .
Dançado a soco!
Tocado a murro!
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
*****************************************![]()