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" Língua Portuguesa "
Mario Cruz
- Que destino será o teu, o luso idioma,
no amanha do porvir nestas terras de América?
Tua semente, trouxe-a o vendaval do Atlântico
no topo do velame esguio das caravelas!
- Sob o céu tropical germinaste e floriste,
inundando o Brasil de aromas e harmonias,
e teu doce falar fez palpitar de amor
a virgem cunhatã, a "dos lábios de mel". . .
- E fez de amor sofrer a pálida Moema,
que a paixão sepultou no glauco mar sombrio,
e cuja dor, ainda, ao vento, ela soluça
em noites de luar, flutuando à flor das águas.
Foste espelho a expressão de uma raça e de um século:
na epopéia sem par da aurora quinhentista,
levando a Cruz de Cristo às mais remotas plagas,
vibraste na amplidão do Tenebroso Mar!
A tua voz ressoou do ocidente ao levante
sobrepairando o Mar, a Floresta e o Deserto!
E mais longe, e mais alto ainda ressoaria
se mais terras e céus a descobrir houvera!
Mais triste que a tristeza, a tua voz se ouviu,
quando desbaratada a flor dos teus guerreiros,
perdido no Deserto o teu Rei Sonhador,
guardaste o seu adeus no bojo das guitarras.
Língua em que minha Mãe me ensinou a rezar,
e cuja melodia os sonhos me embalou,
e em que, menino, eu fiz o meu primeiro verso:
primeira confissão de amor que em verso eu fiz. . .
Língua meiga e viril, cantante a sonorosa,
tens da prece a doçura e o "silvo da procela".
quando choras, és sombra, e, quando vibras, luz!
Teu soluçar comove e teu clamor assombra!
- Que restara de ti, o língua portuguesa,
quando se refundir pelo Brasil imenso,
feita de raças mil, a Raça Brasileira,
e outro Camões surgir glorificando a América
na opulência e vigor de um novo a ardente idioma.,
- que restara, então, ó língua portuguesa,
do teu puro esplendor de "última flor do Lácio"?
Restará para sempre a palavra "saudade"!
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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