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" Cântico dos Cânticos "
Mario Cruz
Teu longo corpo esguio oscila molemente
como se fosse um junco exposto ao vendaval.
E o teu olhar reflete, qual um lago dormente,
a luz deliqüescente de uma tarde outonal.
Teus lentos gestos rítmicos sugerem o bailado,
litúrgico e sensual, de jovens bailadeiras
bailando, seminuas, à sombra de palmeiras
que se erguem, altaneiras, ante o Ganges sagrado.
Como hão de estremecer-te os ternos seios puros
quando eu os possuir pela primeira vez!
Esses seios que tem a estranha maciez
das roses em botão e dos pêssegos maduros . . .
Teu corpo adolescente faz despertar em mim
melopéias exóticas de ignota ressonância:
gritos de beduínos e salmos de "muezzin'";
cantilenas dolentes morrendo na distancia...
Teu corpo cor de mel cheira a terra molhada.
a framboesa do mato e a resinas selvagens,
e possui o frescor e o viço das paisagens
aljofradas de orvalho à luz da madrugada
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Tua boca vermelha, úmida e tropical
deve saber a frutos selvagens não colhidos.
Oh! a volúpia amarga dos frutos proibidos
na sensação de um novo pecado original!...
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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