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" Divagando "
Maria Thereza de Andrade Cunha
Chove lá fora. Cá por dentro, erma,
Tem esta sala, palidez enferma.
Há em tudo um silêncio que me irrita;
Nada vibra nem freme, nem palpita !...
O chão, as flores, os espelhos, tudo
Num descoloramento triste e mudo,
Lembra sombras feitas, sombras frias,
De sonhos, de quimeras, de alegria,
. . . Um piano, sozinho, abandonado,
Num mutismo cruel, desconsolado...
. . . Uma flor, que na jarra se debruça,
Vive morta, a não canta, e não soluça! . . .
Uma lâmpada fria, inexpressiva.
Que não brilha, não morre e não se aviva;
. . . Uma lágrima triste, rebrilhando,
- E nem ao menos eu estou chorando !. . .
Chove lá fora. Cá por dentro escorre
O tempo de uma noite que não morre'.
- Que importa a vida, quando a morte é certa ?
. . . Como é fria esta sala, e assim deserta
Ela fica, talvez, mais fria ainda . . .
- Quem sabe a vida, muita vez, é linda ?!
Chove lá fora. É plúmbeo o firmamento;
Choram goteiras num desolamento.
E eu adivinho um soluçar de mágoa
Cada vez que desliza um pingo d'água
Riscando, manso, a transparência baça
do retângulo frio da vidraça!
Mas, aqui dentro, nem ao menos vibra
A corda de um soluço, ou uma fibra
Do piano, sozinho, abandonado
... Há em tudo um véu tênue, acinzentado. . .
Cerro os olhos . . .
e dentro do meu peito
Sinto meu coração semi-desfeito .
. . . Há na minha tristeza que não fala,
A mesma solidão que há nesta sala! . . .
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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