
![]()
*****************************************
" Anseio "
Maria Thereza de Andrade Cunha
Quisera ter correndo em minhas veias
Seiva, em vez de sangue,
E pela terra aprofundar sem peias
Qual se fora raiz, minha alma langue.
Ah! se chegando a primavera.
- Como se eu fora um Flamboyant copado. -
Os meus sonhos se abrissem como flores.
Eu lançaria para a esfera
Um punhado
De perfume, de pétalas, de cores! . . .
Nos crepúsculos ruivos e parados
- Morrendo as folhas de volúpia e sono
Despindo os galhos tortos; -
Quisera erguer meus braços desfolhados,
Embebendo-os no outono
Longos e curvos, de volúpia mortos.
E quando o sol, ardente,
Me inundasse de luz
Escaldando em desejos,
Eu me faria linda e diferente,
Enfeitando os galhos nus
Com os frutos de seus beijos.
Quisera pelas tardes sem encanto
Tristonhas e abafadas,
Encher-me de cigarras chiadeiras,
Alegrando-me, ouvindo-lhes o canto
Sentindo-as ressonantes e agitadas
Em suas brincadeiras.
E quando a tempestade alucinada
sacudisse os meus ramos retorcidos,
Enublado o clarão do firmamento,
Eu dançaria, louca, escabelada,
Rindo, cantando, quase sem sentidos,
Ébria de chuva, babada de vento! ...
Ah! tombar, velha e rugosa,
Lascada ao meio,
Agonizando ao longo de um caminho!
Mas, orgulhosa,
Guardar ainda no seio
Os vestígios de um ninho...
E ter
carícias do sol e do luar
E os embalos do vento.
E acabar lentamente, sem saber,
Sem sofrer, sem chorar,
Sem um lamento!
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
*****************************************![]()