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 "
Anseio "
                                                             Maria Thereza de Andrade Cunha



Quisera ter correndo em minhas veias
Seiva, em vez de sangue,
E pela terra aprofundar sem peias
Qual se fora raiz, minha alma langue.

Ah! se chegando a primavera.
- Como se eu fora um “Flamboyant” copado. -
Os meus sonhos se abrissem como flores.
Eu lançaria para a esfera
Um punhado
De perfume, de pétalas, de cores! . . .

Nos crepúsculos ruivos e parados
- Morrendo as folhas de volúpia e sono
Despindo os galhos tortos; -
Quisera erguer meus braços desfolhados,
Embebendo-os no outono
Longos e curvos, de volúpia mortos.

E quando o sol, ardente,
Me inundasse de luz
Escaldando em desejos,

Eu me faria linda e diferente,
Enfeitando os galhos nus
Com os frutos de seus beijos.

Quisera pelas tardes sem encanto
Tristonhas e abafadas,
Encher-me de cigarras chiadeiras,
Alegrando-me, ouvindo-lhes o canto
Sentindo-as ressonantes e agitadas
Em suas brincadeiras.

E quando a tempestade alucinada
sacudisse os meus ramos retorcidos,
Enublado o clarão do firmamento,
Eu dançaria, louca, escabelada,
Rindo, cantando, quase sem sentidos,
Ébria de chuva, babada de vento! ...

Ah! tombar, velha e rugosa,
Lascada ao meio,
Agonizando ao longo de um caminho!
Mas, orgulhosa,
Guardar ainda no seio
Os vestígios de um ninho...

E ter
carícias do sol e do luar
E os embalos do vento.
E acabar lentamente, sem saber,
Sem sofrer, sem chorar,
Sem um lamento!


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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