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 "
Desamparo "
                                                             Manoel Joaquim da Silva Pinto


Quando eu era menino, possuía
um pai gigante além do azul profundo,
que, num bondoso olhar mirando o mundo,
só não me dava o que eu não merecia.

Quando ciciara, absorto, a "Ave-Maria"
e o "Pai-Nosso" ante um Cristo moribundo
me acolchoava num sono manso e fundo,
enquanto o anjo-da-guarda me sorria . . .
O ácido do cismar corroeu-me a crença:
Esse cáustico atroz que a idade trouxe
diluiu o grande pai na curva imensa.
E hoje choro, amputado do Infinito,
aquela fé, mais mágica e mais doce
do que o conto de fadas mais bonito.


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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