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 "
Poemas do Colégio Interno "
                                                             Lucio Cardoso

I
Nunca eu soubera o segredo da alegria alheia,
Ouvia os risos que enchiam o pátio de recreio
e sofria dessa dor sem nome de sentir a vida
muito mais cedo do que os outros sentem.

O sol refulgia no dorso branco dos muros
e trazia o desejo como a morte aos caminhantes.
Mas que estranha maldição tinha tombado nos meus ombros
para que só eu sentisse o frio das grandes árvores solitárias?

É certo que lutava para compreender o menino triste,
insensível à agitação em torno.
Sabia que ele tinha medo do ruído que ouvia,
mas também tinha medo do silencio que devora.

E em breve, vende o tempo crescer como a noite das águas
reconheci a meninice que fugia
e senti mais funda a dor de compreender
o terrível e frágil segredo das horas.
Quis ,deter o menino que morria,
quis falar alguma coisa ainda não dita,

uma palavra, um soluço,
um riso que era como a sombra de um outro ser,
vivendo do meu sangue.
Mas era muito tarde
e eu sentia os anos implacáveis que chegavam.

II
Ouço os bondes que passam na pureza da madrugada.
Decerto os bancos vão vazios e o condutor adormeceu,
ouvindo as rodas que cantam nos trilhos.
As árvores dormem como ilhas perdidas na sombra,
o frio da noite envolve as coisas,
o orvalho pinga da beira das casas
e tomba na face fosforescente dos trilhos que fogem.

O silencio nasce da névoa que rola.

Ó noites sem termo do colégio interno
náufrago na hora em que os outros repousam,
pressentindo o carro que voa nas trevas,
vazio, vazio, meu Deus,
levado pela mesma angustia, pela mesma dor,
pela loucura inexprimível que me desperta
e me faz arder como a chama nascida
dos misteriosos detritos que fecundam as águas mortas.

Ó minutos que passam como asas
lançadas no espaço febril da minha insonia,
som agonizante que aos poucos se extingue,
trilhos feridos que adormecem na penumbra,
solidão que acorda tão fundo em meu espírito,
a certeza do vazio que demora,
do abandono que me envolve como as vagas ao corpo conquistado. . .



(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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