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" Carta A Um "Pracinha" na
Itália "
Lourival Almeida Valle
Caro amigo
Através das tuas linhas discretas
desfiei a corrente dos teus pensamentos.
Tua mãe estará com aqueles olhos grandes
pregados na querida imagem milagrosa da sala de jantar
rezando por ti.
Teu pai aguarda preocupado as últimas notícias da guerra
ouvido colado no rádio.
Seus cabelos já fazem lembrar a neve que cobre teu verde-oliva.
Tua irmã tricota mais um pé de meia de lã para o irmão
que luta na Itália por um mundo melhor.
Tua noiva sempre te espera como sempre te esperará.
Teu último "controle" anda por ai tricotando
beijos com qualquer "acidental". . .
(Esta lembrança porá um sorriso nos tens lábios gretados.)
Teus amigos falam de ti e lembram os estudos e farras célebres.
Teus colegas andam coletando os cigarros que irás fumar.
Estarás pensando nos teus livros silenciosos na estante
e no retrato querido em cima da tua mesa e que te fita animando.
E tua mão enregelada fará um gesto trêmulo de afago.
Acenderás um dos cigarros que a moça brasileira empacotou
assim disfarçaras a decepção do gesto perdido
Meu taro amigo
os olhos e o pensamento de tua gente estão aí
deitados contigo na trincheira
sentindo os projéteis furando o ar gelado.
Os olhos e o pensamento de tua gente te acompanham.
Não te esqueças disso e aprende e pensa.
Quando voltares serás como o homem que voltou com dois olhos
para a terra onde todos são cegos.
E o brilho novo e profundo dos teus olhos dará
novo significado as cousas que todos fitarem.
E a modulação cheia de realidades da tua voz
perfurara tímpanos relaxados.
E os teus gestos compreensivos romperão
pensamentos concêntricos.
Tua noiva te espera e terá o maior sorriso
somado ao teu sorriso profundo
quando nascer o teu filho num mundo melhor
que tuas mãos geladas irão plasmar
e tuas reflexões irão orientar.
Aprende amigo e pensa
para que o teu filho nao tenha leito de neve
nem lábios gretados
nem gestos perdidos
nem Natal com sangue e metralha.
Aprende para que a terra não tenha de beber outra vez
lágrimas de mãe ausente
e sangue de filho morto nos campos gelados.
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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