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 "
A Dádiva de Junho "
                                                             Lêdo Ivo


No meio-dia, veio
a saudade do paraíso
em carne, velo e pedra
que uma mulher me deu.

Antes de se libertar
das nuvens, dos pássaros
foi corpo de moça nua
que uma mulher me deu.

Meu rosto ficou em êxtase
e ocasionalmente tranqüilo.
Imobilizou-o o riso
que uma mulher me deu.

Perdi minha arte poética
na varanda deste mês.
Orientou-me o olhar
que uma mulher me deu.

Sob céus azuis e brancos
a musica me espatifou.
Morreria sem o socorro
que uma mulher me deu.

Degradado me senti
e o desamor me cobriu.
Faltava o mudo colóquio
que uma mulher me deu.

Verti, na lua fantástica,
a água do meu desespero.
Só me curaria o amor
que uma mulher me deu.

Fugi na manha serena
- minha pena!
- trovador sensacional.
Queria apenas as lágrimas
que uma mulher me deu.

Dancei sambas na Pavuna
encostei-me aos oitizeiros
certo da imortalidade
que uma mulher me deu.

Lutei contra a morte
e me despaisei
levando comigo as coisas
que uma mulher me deu.

Fui suficientemente cruel
e desprezei em silencio.
Faltava-me o amor ao próximo
que uma mulher me deu.

Rasguei todos os sonetos
anteriores ao encontro
pois nao tinham o rigor clássico
que uma mulher me deu.

Gravei seu nome tão claro
em todas às arvores do Brasil.
inflamava-me o civismo
que uma mulher me deu.

Depois sai caminhando
em direção às estrelas.
E na terra ficava o céu
que uma mulher me deu.


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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