
![]()
*****************************************
" A Dádiva de Junho "
Lêdo Ivo
No meio-dia, veio
a saudade do paraíso
em carne, velo e pedra
que uma mulher me deu.
Antes de se libertar
das nuvens, dos pássaros
foi corpo de moça nua
que uma mulher me deu.
Meu rosto ficou em êxtase
e ocasionalmente tranqüilo.
Imobilizou-o o riso
que uma mulher me deu.
Perdi minha arte poética
na varanda deste mês.
Orientou-me o olhar
que uma mulher me deu.
Sob céus azuis e brancos
a musica me espatifou.
Morreria sem o socorro
que uma mulher me deu.
Degradado me senti
e o desamor me cobriu.
Faltava o mudo colóquio
que uma mulher me deu.
Verti, na lua fantástica,
a água do meu desespero.
Só me curaria o amor
que uma mulher me deu.
Fugi na manha serena
- minha pena!
- trovador sensacional.
Queria apenas as lágrimas
que uma mulher me deu.
Dancei sambas na Pavuna
encostei-me aos oitizeiros
certo da imortalidade
que uma mulher me deu.
Lutei contra a morte
e me despaisei
levando comigo as coisas
que uma mulher me deu.
Fui suficientemente cruel
e desprezei em silencio.
Faltava-me o amor ao próximo
que uma mulher me deu.
Rasguei todos os sonetos
anteriores ao encontro
pois nao tinham o rigor clássico
que uma mulher me deu.
Gravei seu nome tão claro
em todas às arvores do Brasil.
inflamava-me o civismo
que uma mulher me deu.
Depois sai caminhando
em direção às estrelas.
E na terra ficava o céu
que uma mulher me deu.
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
*****************************************![]()