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 "
Pequenino Morto "
                                                      Jorge Medauar



Pequenino morto,
tu não és aquele que seguiu sorrindo,
de vestido azul com fitinhas brancas,
num caixão de pinho de douradas alças,
pequenino morto.

Tu não és aquele,
por quem na capela repicaram sinos,
quando te levaram para o campo-santo,
pequenino morto.

Tu não és aquele,
pois te vi seguir pela rua estreita,
numa tarde feia, de nublado céu,
pequenino morto.

Não tiveste velas,
nem alças douradas no caixão tão pobre,
em que repousavas num tristonho sono,
pequenino morto.

Quando tu partiste,
não havia séquito, não havia flores,
e nem ladainhas na voz de crianças,
pequenino morto.

E como eras triste,
sem ao menos prantos para te chorar.
Antes de morrer tu já estavas morto,
em dois secos braços - teu berço de carne,
pequenino mono.

Quase sem vestido,
num caixão tão duro para o teu corpinho,
por que na capela, quando tu partiste,
não choraram sinos, compungidamente,
pequenino morto?


(  Antologia da Nova Poesia Brasileira

  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1948  )

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