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" Poema Perpendicular "
José Décio Filho
Os grilos desmaiaram de madrugada
De tanto acalentar a noite.
O dia para eles é uma eternidade
abismo neutro das hervas.
O louco conversava com as andorinhas
Sentado nas calçadas da igreja.
Elas pousavam sobre os seus ombros
E ele olhava o céu de pertinho
Com uma doce intimidade.
Mais puro que São Francisco.
As andorinhas não mais sabiam,
Se o louco era ainda um homem.
De tarde, com um palmo de sol,
Os meninos foram ao rio se banhar
E um deles se afogou.
Quando os homem procuravam o cadáver,
Uma criança lhes gritou, um clarão nos olhos:
- Vocês não acham o afogado,
Saiu voando pelas águas, eu vi,
Com uma asa branca e outra azul!
Os homens se sorriram ceticamente
L continuaram o trabalho.
De vez em quando teu amor me visita
Como um fantasma antigo.
Eu abro a porta, ele entra
E olha num silencio triste
A minha alma desempregada.
Tudo isso não é nada:
Eu me desesperarei até ao infinito
Para que possa nascer de novo.
( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed.
1948 )
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